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Diálogo e Articulação com Igrejas

53ª Assembleia da CESE aproxima igrejas das realidades e lutas dos povos amazônicos

13 de junho de 2026

Pela primeira vez em sua história, a CESE realizou sua Assembleia Anual na região Norte do Brasil.
A 53ª edição do encontro aconteceu de 10 a 12 de junho, em Belém (PA), reunindo representantes das igrejas-membro e organizações parceiras em um momento de apresentação dos seus relatórios e de vivência junto a experiências apoiadas pela organização na Amazônia. Realizada em um contexto pós-COP 30 e de ampliação da atuação da CESE na região, a Assembleia buscou aprofundar o diálogo sobre os desafios enfrentados pelos povos e comunidades amazônicas, reafirmando o compromisso da organização com a justiça socioambiental e a defesa dos direitos humanos.

Além dos espaços deliberativos da Assembleia, a programação incluiu roda de diálogo, lançamento de publicação e visita a uma comunidade quilombola, proporcionando aos participantes uma vivência direta com iniciativas de resistência, organização comunitária e defesa do território.

Roda de diálogo e lançamento de publicação

Na noite do dia 10 de junho, a Assembleia participou da roda de diálogo e do lançamento da publicação Não em Nome da Fé: Fundamentalismos, regressão democrática e ataques à justiça de gênero. Promovida pelo Fórum Ecumênico Sul-Americano da ACT Aliança (FESUR), pela ACT Aliança e pelo Fórum Ecumênico ACT Brasil (FEACT Brasil), com apoio da CESE. A atividade teve como objetivo refletir sobre os impactos do avanço dos fundamentalismos religiosos e políticos na América do Sul e fortalecer estratégias coletivas de defesa dos direitos, da democracia e da justiça de gênero. Leia a notícia da atividade na íntegra aqui.

Quilombo Menino Jesus: resistência, gestão territorial e proteção da Amazônia

A visita a iniciativas apoiadas pela CESE é uma prática que integra a programação de suas Assembleias. Mais do que apresentar ações desenvolvidas com apoio da organização, a atividade proporciona um contato direto com comunidades e grupos que enfrentam violações de direitos e que resistem em seus territórios. A experiência fortalece os vínculos entre as igrejas-membro e os movimentos populares, ampliando a compreensão sobre os desafios, as lutas e as reivindicações das comunidades apoiadas.

Este ano, os participantes realizaram no dia 11 de junho de uma vivência no Quilombo Menino Jesus, localizado no município de Acará, na Região Metropolitana de Belém. A visita foi acompanhada por Ailton Borges, assessor técnico do Fundo Quilombola Mizizi Dudu (MALUNGU).

Em meio à paisagem amazônica marcada por rios, florestas e áreas de produção tradicional, a delegação conheceu a trajetória de luta do Quilombo Menino Jesus. A comunidade, formada atualmente por cerca de 30 famílias, teve sua certificação reconhecida pela Fundação Cultural Palmares em 2006, mas ainda aguarda a titulação integral de seu território. A vida comunitária é sustentada por práticas tradicionais de base familiar, como o cultivo da castanha e do açaí, a pesca artesanal e a agricultura familiar, atividades fundamentais para a segurança e a soberania alimentar das famílias. Além disso, a comunidade desempenha um papel estratégico na conservação ambiental, na proteção da biodiversidade local e na preservação de conhecimentos e práticas culturais transmitidos entre gerações.

“Sou a presidente aqui da Comunidade Quilombola Menino Jesus e é um prazer, uma honra, receber o pessoal das igrejas que fazem parte da CESE. A gente sempre gosta de receber pessoas, tanto daqui de perto quanto de longe, e com vocês não foi diferente. Sempre procuramos dar o nosso melhor para acolher quem chega e para mostrar um pouco da nossa comunidade e da nossa luta. Falar do nosso quilombo é motivo de muito orgulho para nós. Temos orgulho de ser quilombolas, da nossa história e da nossa identidade”, afirmou Odaíse da Cruz Teles, presidenta da Comunidade Quilombola Menino Jesus.

Durante a visita, os/as participantes foram recebidos/as com um farto café da manhã produzido e preparado pela comunidade, com frutas e alimentos típicos da região. O encontro contou com a presença de lideranças e famílias residentes no território, que compartilharam suas experiências, modos de vida e os principais desafios enfrentados pelas comunidades quilombolas da região.

A programação incluiu ainda a visita a duas trilhas conduzidas por moradores da comunidade, proporcionando aos participantes uma imersão no território, em seus saberes tradicionais e na relação histórica da população quilombola com a floresta e os recursos naturais.

A visita integrou uma programação mais ampla de reflexão e intercâmbio. Foram debatidos temas como os conflitos fundiários, as ameaças ambientais, as dificuldades de acesso a políticas públicas e a luta permanente em defesa do território. O principal conflito enfrentado pela comunidade atualmente é a proposta de instalação de um aterro sanitário no município de Acará (PA), destinado a receber resíduos da Região Metropolitana de Belém. Caso seja implementado, o empreendimento poderá impactar diretamente cerca de 15 comunidades quilombolas, gerando preocupações relacionadas à saúde, ao meio ambiente e à preservação dos modos de vida tradicionais.

“Esse problema do lixo é muito sério para nós. Querem trazer para cá o lixo de três municípios. Eu sempre digo nas reuniões que, muitas vezes, a nossa própria comunidade nem conta com coleta regular de lixo. Nós damos um jeito no nosso lixo, cuidamos do nosso território, e agora querem trazer o lixo de outros municípios para ser depositado aqui. Isso é uma grande falta de respeito com o nosso povo. Muitas pessoas dizem que o aterro sanitário é uma coisa boa. No papel, no projeto, tudo parece lindo e maravilhoso. Se você olhar apenas o projeto, rapidamente pode achar que é uma boa ideia. Essa luta já dura cerca de 13 anos. Se esses aterros ainda não foram instalados aqui, é por causa da resistência das comunidades. E nós não vamos parar de defender os nossos direitos e o nosso território. Muitas vezes fazemos reuniões, mobilizações, apresentamos nossas preocupações, mas nem sempre somos ouvidos. Enquanto isso, decisões são tomadas por pessoas que nunca vieram aqui, que não conhecem a nossa realidade e que não escutam quem vive neste território todos os dias. Nós continuaremos lutando para proteger nossa comunidade, nossa saúde, nosso meio ambiente e o futuro das próximas gerações.”, relatou um representante da comunidade Menino de Jesus.

“Estamos aqui pela primeira vez realizando a Assembleia da CESE em Belém, no Pará. Viemos à Comunidade Quilombola Menino Jesus para fazer esse mergulho na realidade de uma comunidade que tem resistido por muitos anos para manter suas tradições e seu modo de vida. Ao mesmo tempo em que conhecemos suas potencialidades, também conhecemos as lutas que enfrenta. Hoje, uma das grandes preocupações é a ameaça da instalação de dois lixões nas proximidades do território. Por isso, estamos aqui para conhecer tanto as riquezas quanto os desafios e as resistências dessa comunidade e nos somar à denúncia das violações de direitos sofridas pelos povos amazônicos”, afirmou Sônia Mota, diretora executiva da CESE.

”Falar dessa experiência da primeira Assembleia da CESE, aqui na Amazônia, está sendo incrível. Poder ter o contato com as comunidades tradicionais, com o povo quilombola dessa região, que tem sofrido muitos ataques das empresas, falta de apoio dos governos…. E estar aqui enquanto a Aliança de Batistas, enquanto CESE apoiando esse trabalho é significativo, porque faz a gente dar força para essa comunidade e ao mesmo tempo também ter força na nossa luta, entendendo que estamos no caminho certo, no caminho do direito e da justiça.” afirmou o Pastor Bruno Moreira da Silva Clemente Aguiar, Presidente da ABB.

Para a CESE, experiências como a do Quilombo Menino Jesus evidenciam que a proteção da Amazônia está diretamente relacionada à garantia dos direitos territoriais dos povos e comunidades tradicionais. Em um cenário de crescente atenção internacional à região, iniciativas conduzidas por quem vive e cuida desses territórios demonstram que a preservação da floresta e a promoção da justiça social caminham lado a lado.

“Quero aqui declarar a minha alegria por ter participado da vivência no Quilombo Menino Jesus, um quilombo de resistência aqui do Pará, que está lutando contra a instalação de um aterro sanitário, a chegada de um lixão. Então, a nossa vivência e incidência é dizer: lixão não! Neste território, liderado por mulheres potentes e fortes. Aqui também reafirmamos o compromisso da CESE em seu fazer e em seu diálogo junto aos povos e comunidades tradicionais de todo o Brasil, especialmente agora na Amazônia Legal, onde está acontecendo a nossa Assembleia. Pedimos licença à ancestralidade, àqueles e àquelas que vieram antes de nós, e também celebramos as parcerias que construímos neste território”, agradeceu Marcella Gomez, coordenadora de Projetos e Formação da CESE.

“É a nossa primeira experiência, como CESE, de realizar a Assembleia fora de Salvador. Uma experiência riquíssima, um momento de aprofundamento da nossa missão e da nossa responsabilidade. Foi também um tempo de aprendizado, de troca. Escutar a comunidade hoje fortaleceu a nossa fé e reafirmou que estamos no caminho certo — ou, melhor ainda, que estamos mais próximos desses povos que sofrem tanto com as injustiças políticas, econômicas e ambientais. Sigamos como CESE. Estamos no caminho, e Deus também confirma aquilo que realizamos e estamos realizando nestes dias. Avante, parabéns!”, pontuou Padre Marcus Barbosa Guimarães – Comissão Episcopal para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso da CNBB/ICAR e membro da Diretoria Instutucional da CESE.

“A CESE sempre nos proporcionou o contato direto com lideranças e comunidades que resistem e defendem seus territórios. A visita ao Quilombo Menino Jesus reforçou a importância da organização coletiva, da união e da solidariedade na defesa dos territórios e dos direitos das comunidades. Tivemos a oportunidade de conhecer uma história marcada pela resistência, pelo protagonismo das mulheres e pelo compromisso das novas gerações com a proteção do território, da cultura e dos modos de vida da comunidade. Saímos desta experiência com o compromisso renovado de dar visibilidade a essas lutas e profundamente agradecidos pelo aprendizado e pela acolhida”, agradeceu Edoarda Sopelsa Scherer, coordenadora-geral do CONIC.

Conhecer este espaço e compreender sua importância para a região foi uma experiência muito significativa. É uma comunidade que resiste, se organiza e mantém viva a luta pela garantia de seus direitos e pela defesa de seu território. Estamos muito felizes pela acolhida que recebemos no Quilombo Menino Jesus e queremos também expressar nossa solidariedade à luta da comunidade, reafirmando nosso compromisso com a defesa de seus direitos e de suas reivindicações.” Presbítera Anita Sue Wright Torres (IPU), presidenta da CESE.

Ao final do encontro, as igrejas-membro reafirmaram seu compromisso com os direitos humanos, a justiça socioambiental e a luta contra a instalação do lixão, através da construção de uma Carta da Assembleia.

Acesse aqui a carta em PDF – QUILOMBO DE TODAS AS LUTAS: NÃO ATERRE OS DIREITOS! ou no site AQUI.

“Foi uma experiência muito significativa participar da primeira Assembleia da CESE realizada fora de Salvador. A visita permitiu vivenciar uma experiência concreta de cuidado com a Casa Comum e de preservação da floresta, além de reforçar a importância do trabalho desenvolvido pela CESE junto às comunidades. Ao mesmo tempo, foi impossível não se preocupar e não se entristecer ao saber que há interesses empresariais e projetos que ameaçam destruir esse território e comprometer um modo de vida que protege a floresta e promove o cuidado com a Casa Comum. Essa realidade reforça a necessidade de seguirmos apoiando a luta das comunidades por seus direitos e pela preservação de seus territórios.” salientou o Bispo João Câncio Peixoto Filho (IECLB).

No período da tarde, dando continuidade à vivência em solo amazônico, foram apresentadas duas experiências apoiadas pelo segundo edital do projeto Dabucury – Compartilhando Experiências e Fortalecendo a Gestão Etnoambiental das Terras Indígenas da Amazônia Brasileira, iniciativa realizada pela CESE e pela Coiab, com apoio do Fundo Amazônia/BNDES: a Associação Comunitária Shanenawa da Aldeia Morada Nova (ACOSMO) e a Organização Indígena da Resistência Mura de Autazes (OIRMA).

As apresentações compartilharam a história, a trajetória de luta e as ações desenvolvidas pelas organizações em seus territórios, evidenciando a diversidade de estratégias construídas pelos povos indígenas amazônicos para fortalecer a gestão territorial e ambiental, defender seus direitos e preservar seus modos de vida.

APROVAÇÃO DO RELATÓRIO INSTITUCIONAL

No dia 12 de junho, a programação da Assembleia seguiu com a apresentação do Relatório Institucional de 2025, composto pelo Relatório de Atividades e Financeiro. Foi apreciado o parecer do Conselho Fiscal, aprovando as contas da instituição. Após apreciação, a Assembleia aprovou por unanimidade o Relatório Institucional. Os arquivos estão disponíveis abaixo:

”Tive a honra e a alegria de participar da Assembleia da CESE, realizada em Belém, um momento marcado pelo aprendizado, pela comunhão e pelo fortalecimento da fé. O encontro reuniu lideranças e representantes de diferentes lugares, proporcionando um rico intercâmbio de experiências, reflexões e vivências que reafirmaram nosso compromisso com a missão cristã e com o serviço ao próximo. Durante a Assembleia, compartilhamos momentos de oração, diálogo e reflexão, que renovaram nossa esperança e fortaleceram nossos propósitos de seguir servindo com dedicação, amor e perseverança. Além dos importantes debates e decisões, a convivência fraterna foi uma oportunidade valiosa para estreitar laços, ampliar horizontes e fortalecer a caminhada ecumênica. Retorno desta experiência com o coração grato, inspirado e renovado para os desafios que se apresentam, confiante de que Deus continua conduzindo nossa missão de testemunho, justiça e serviço.” – Rev. Jurandi Abreu dos Santos (IPI)

Rev. Jurandi Abreu dos Santos
Representante da IPIB junto à CESE.

‘Seguimos sendo uma igreja profética, que transforma palavras em ações e apoia aqueles povos que historicamente sofrem as consequências das desigualdades. Saio deste momento com muita gratidão. Parabéns à CESE por, em nome das igrejas, estar comprometida com a defesa dos direitos humanos, a justiça social e a luta dos povos e comunidades tradicionais em todo o território nacional. Continuem contando conosco.” – Pastor Mauro Batista de Souza (IECLB).

Representantes presentes na 53ª Assembleia Geral Ordinária da CESE

Aliança de Batistas do Brasil (ABB): Gilvaneide José dos Santos; Pastor Bruno Moreira da Silva Clemente Aguiar; Pastor Luciano Santos Santana Lacerda.

Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR): Padre Marcus Barbosa Guimarães; Cristiane Araújo de Queiroz; Edoarda Sopelsa Scherer.

Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB): Bispo João Câncio Peixoto Filho; Bispa Magda Cristina Guedes Pereira; Gisele Tavares Pereira Cavalcante; Reverenda Dilce Regina Paiva de Oliveira.

Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB): Pastor Sidney Retz; Pastor Renato Küntzer; Ana Carolina Boueres Everton; Pastor Mauro Batista de Souza.

Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (IPIB): Reverendo Jurandi Abreu dos Santos.

Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (IPU): Presbítera Anita Sue Wright Torres; Reverendo Francisco Benedito Leite; Cristiane Correia Monteiro.

Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC): Bispa Magda Cristina Guedes Pereira; Edoarda Sopelsa Scherer.

Plataforma de Articulação e Diálogo (PAD): Júlia Ester França.

Equipe Executiva da CESE: Pastora Sônia Gomes Mota (Diretora Executiva); Daniel Musse (Coordenador Administrativo-Financeiro); Patricia Gordano (Coordenadora de Comunicação); Marcella Gomez (Coordenadora de Projetos e Formação); Bianca Daébs (Assessora para Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso). A atividade também contou com a presença de Ester Borges (Secretaria) na logística do evento.

Acesse aqui as fotos das atividades do dia 12 de junho da Assembleia

Acesse aqui as fotos da Vivência na Comunidade Quilombo Menino Jesus

Acesse aqui as fotos do Lançamento da Publicação ” Não em nome da fé”

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