Em Belém, lançamento da publicação “Não em Nome da Fé” debate impactos dos fundamentalismos sobre direitos e a democracia
11 de junho de 2026
Representantes de igrejas, organizações ecumênicas, movimentos sociais e indígenas, comunidades de fé e defensoras dos direitos humanos participaram, na noite desta terça-feira (10), em Belém (PA), da roda de diálogo e do lançamento da publicação Não em Nome da Fé: Fundamentalismos, regressão democrática e ataques à justiça de gênero. A atividade reuniu lideranças religiosas, pesquisadoras e integrantes da ACT Aliança para refletir sobre os impactos do avanço dos fundamentalismos religiosos e políticos na América do Sul e fortalecer estratégias coletivas para defesa de direitos.
Promovido pelo Fórum Ecumênico Sul-Americano da ACT Aliança (FESUR), pela ACT Aliança e pelo Fórum Ecumênico ACT Brasil (FEACT Brasil), com apoio da CESE, o encontro aconteceu no Parque dos Igarapés e integrou a programação da Assembleia Ordinária da CESE, realizada pela primeira vez em Belém.
A mesa de diálogo contou com a participação de Petra Langheinrich, integrante do Comitê Editorial da publicação e representante da ACT Aliança e do FESUR; da yalorixá Nalva de Oxum, do Ilê Axé Yabá Omi e conselheira nacional do CONSEA; e da pesquisadora Magali Cunha, doutora em Comunicação e referência nos estudos sobre religião e política no Brasil.
Fé a serviço da dignidade humana
Durante a abertura, Petra Langheinrich destacou que a publicação nasce em um contexto de aprofundamento das disputas em torno dos direitos humanos e da democracia na região. Segundo ela, os casos documentados no relatório evidenciam que os fundamentalismos não se restringem ao campo religioso, mas atuam também como fenômeno político, econômico e cultural.
“A América do Sul enfrenta uma expansão acelerada de agendas de retrocessos impulsionadas por atores religiosos e políticos ultraconservadores que instrumentalizam a fé para restringir direitos e enfraquecer avanços democráticos”, afirmou.
Petra ressaltou ainda que a publicação busca reafirmar a existência de expressões de fé comprometidas com a justiça, a inclusão e os direitos humanos. “Não estamos falando em nome da fé para excluir, mas para afirmar a dignidade humana, a justiça de gênero e a democracia. A fé também pode ser uma força transformadora a serviço da vida”, destacou.
Fundamentalismos e seus impactos nos territórios
A publicação reúne quatro estudos de caso realizados na Argentina, Brasil, Colômbia e Peru. Os relatos documentam diferentes formas de atuação dos fundamentalismos religiosos e políticos, incluindo ataques a direitos sexuais e reprodutivos, perseguição a defensoras e defensores de direitos humanos, demonização de espiritualidades indígenas e afrodescendentes e tentativas de restringir direitos de pessoas LGBTQIA+.
Ao comentar os impactos dessas agendas nos territórios, Nalva de Oxum chamou atenção para os efeitos do racismo religioso e da intolerância sobre os povos de terreiro e comunidades tradicionais.
“A violência contra nossos territórios e espiritualidades não acontece de forma isolada. Ela está ligada a um projeto que busca silenciar saberes ancestrais, negar direitos e enfraquecer formas coletivas de organização e resistência”, afirmou.
A yalorixá também destacou a importância da articulação entre movimentos sociais, organizações ecumênicas e comunidades de fé para enfrentar os retrocessos e fortalecer a defesa dos direitos.
Religião, política e democracia
Em sua intervenção, Magali Cunha abordou a crescente influência de grupos religiosos nos debates públicos e nos processos políticos da região. A pesquisadora destacou que a manipulação da fé tem sido utilizada para legitimar discursos de ódio, desinformação e ataques a direitos conquistados historicamente.
Magali também ressaltou que a publicação é resultado de uma caminhada construída pelas organizações ecumênicas da América do Sul ao longo dos últimos anos. Segundo ela, o documento atualiza reflexões iniciadas em 2019, quando os fóruns da ACT Aliança passaram a aprofundar a compreensão sobre o avanço dos fundamentalismos e seus impactos sobre a democracia e os direitos humanos na região.
“Esta publicação é muito importante porque faz parte de um processo que vem sendo construído desde 2019, quando as organizações ecumênicas da América do Sul passaram a se preocupar em compreender os avanços do fundamentalismo e como atuar frente a essa realidade. Já houve um relatório em 2020 e este novo documento atualiza aquele processo, trazendo elementos muito concretos da realidade dos nossos países”, afirmou.
Para ela, compreender esse fenômeno é fundamental para fortalecer a democracia e construir respostas coletivas capazes de enfrentar os retrocessos.
“A disputa não é entre fé e direitos. A disputa é entre projetos de sociedade. Precisamos fortalecer as experiências religiosas comprometidas com a justiça social, com a pluralidade e com a defesa da vida em sua diversidade”, afirmou.
Caminhos para enfrentamento
Além de documentar os impactos dos fundamentalismos na América do Sul, a publicação apresenta dez recomendações estratégicas voltadas ao fortalecimento de respostas ecumênicas e inter-religiosas diante do avanço das mobilizações antidereitos e dos discursos de ódio.
Entre as recomendações estão o fortalecimento da incidência política, a ampliação de alianças entre movimentos sociais e organizações de fé, a proteção de defensoras e defensores de direitos humanos e a valorização de narrativas religiosas comprometidas com a democracia e a justiça social.
Encerrando a atividade, a reverenda Bianca Daébs, Assessora para Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso da CESE, destacou a importância de fortalecer alianças ecumênicas e inter-religiosas diante dos desafios impostos pelos fundamentalismos na região.
“Esta publicação reafirma que existem comunidades de fé comprometidas com a democracia e os direitos humanos. Ela nos convoca a fortalecer redes de solidariedade, diálogo e incidência política capazes de enfrentar os discursos de ódio e promover a justiça em nossos territórios”, afirmou.
A diretora executiva da CESE, Sônia Mota, também ressaltou a importância de realizar o lançamento da publicação durante a Assembleia Ordinária da organização. Segundo ela, o tema já integra há anos as reflexões e ações desenvolvidas pela CESE em articulação com o Fórum Ecumênico ACT Brasil (FEACT Brasil).
“Fazer o lançamento da publicação Não em Nome da Fé aqui na Assembleia da CESE foi um grande acerto. Este é um tema que a CESE vem trabalhando há algum tempo junto ao FEACT Brasil, especialmente diante do avanço dos fundamentalismos que também atravessam os espaços religiosos e as igrejas que compõem nossa caminhada ecumênica. Trazer essa discussão para a Assembleia, ampliando o diálogo com experiências de outros países da América do Sul, foi de fundamental importância para fortalecer nossa reflexão e nossa ação coletiva”, destacou
A publicação Não em Nome da Fé: Fundamentalismos, regressão democrática e ataques à justiça de gênero foi produzida pelo Fórum Ecumênico Sul-Americano da ACT Aliança (FESUR), com apoio da CESE, e reúne análises e experiências que evidenciam como diferentes atores têm instrumentalizado discursos religiosos para restringir direitos e enfraquecer instituições democráticas na América do Sul.
A roda de diálogo também contou com a participação de Rafael Soares Oliveira, da KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, que representou o Fórum Ecumênico ACT Brasil (FEACT Brasil).
Clique aqui para acessar a publicação
