Belém recebe lançamento da publicação “Não em Nome da Fé”, que denuncia impactos dos fundamentalismos sobre direitos e democracia na América do Sul
03 de junho de 2026
Roda de diálogo reunirá representantes da ACT Aliança, FEACT Brasil, CESE e organizações parceiras para debater os avanços de agendas ultraconservadoras e seus impactos sobre as populações vulnerabilizadas
Em um contexto de crescimento de discursos de ódio, ataques aos direitos humanos e instrumentalização da religião na política, Belém (PA) sediará o lançamento, no Brasil, da publicação Não em Nome da Fé: Fundamentalismos, regressão democrática e ataques à justiça de gênero. O evento acontecerá no dia 10 de junho, às 18h, no Parque dos Igarapés, e contará com uma roda de diálogo com o mesmo título da obra.
Produzida pelo Fórum Ecumênico Sul-Americano da ACT Aliança (FESUR), a publicação documenta casos ocorridos na Argentina, Brasil, Colômbia e Peru, analisando como grupos religiosos e políticos ultraconservadores têm atuado para restringir direitos, enfraquecer instituições democráticas e atacar populações historicamente vulnerabilizadas.
O lançamento acontece em um momento considerado estratégico pelos organizadores/as do livro. Segundo Petra Langheinrich, integrante do Comitê Editorial da publicação e representante da ACT Aliança e do FESUR, a obra chega em um cenário de aprofundamento das disputas em torno dos direitos humanos e da democracia na região.
“A América do Sul enfrenta uma expansão acelerada de agendas de retrocessos impulsionadas por atores religiosos e políticos ultraconservadores que instrumentalizam a fé para restringir direitos, enfraquecer avanços democráticos e questionar princípios fundamentais da vida e da dignidade humana”, afirma.
A publicação aponta que os fundamentalismos religiosos ultrapassam a esfera da crença individual e passam a atuar como fenômeno político, social, econômico e cultural, influenciando processos eleitorais, políticas públicas e decisões judiciais. O relatório também alerta para a crescente articulação desses grupos no âmbito internacional, especialmente em contextos eleitorais.
“Não estamos diante de fatos isolados ou de expressões marginais. Trata-se de estratégias articuladas, cada vez mais organizadas, impulsionadas por atores religiosos e políticos que utilizam discursos de fé para restringir liberdades fundamentais e para reverter conquistas históricas”, destaca Petra.
Quando a fé é utilizada para negar direitos
A publicação reúne quatro estudos de caso que mostram como os fundamentalismos têm impactado a vida de diferentes populações na América do Sul. Os relatos documentam ataques a direitos humanos, perseguições a defensoras e defensores de direitos, restrições às liberdades individuais e coletivas, além do fortalecimento de discursos que alimentam a discriminação, a intolerância e a exclusão social.
No Brasil, o relatório destaca como discursos religiosos têm sido mobilizados para justificar violações de direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais, contribuindo para conflitos territoriais, enfraquecimento de garantias constitucionais e deslegitimação de saberes, culturas e espiritualidades historicamente marginalizadas. O caso evidencia como a manipulação da fé pode reforçar desigualdades e comprometer a proteção de direitos coletivos.
Para o FESUR, os impactos dessas ações atingem especialmente mulheres, meninas, pessoas LGBTQIA+, população indígena e povos de terreiro.
No prólogo da publicação, a doutora e pesquisadora Magali Cunha afirmam que “os fundamentalismos matam”, uma expressão retomada por Petra ao explicar o papel das igrejas e organizações de fé diante desse cenário.
“Quando afirmamos que os fundamentalismos matam, nos referimos ao fato de que discursos e práticas de instrumentalização da fé têm consequências reais, concretas e cotidianas sobre a vida das pessoas. Essas práticas matam corpos, sexualidades e identidades e legitimam a discriminação, a exclusão, a violência de gênero e a negação de direitos fundamentais”, descreve a representante do FESUR.
Segundo ela, diante desse contexto, as organizações que integram a ACT Aliança assumem uma responsabilidade ética e profética de promover uma presença pública comprometida com os direitos humanos, a justiça de gênero, a democracia e o diálogo.
Espaço de diálogo e construção coletiva
Além da apresentação da publicação, a programação contará com uma roda de diálogo reunindo representantes da ACT Aliança, do FEACT Brasil, da CESE e de organizações parceiras. A expectativa é que o encontro fortaleça articulações entre comunidades de fé, movimentos sociais, academia e organizações defensoras dos direitos humanos.
“Esperamos que este lançamento se converta em um espaço de diálogo, reflexão e articulação entre organizações de fé, movimentos sociais, atores ecumênicos, academia e organizações de direitos humanos”, explica Petra.
Ela destaca ainda o papel das organizações brasileiras nesse processo.
“A CESE e as demais organizações que integram o FEACT Brasil possuem uma trajetória importante na defesa dos direitos humanos e da justiça social. Queremos construir respostas coletivas diante do avanço dos fundamentalismos e fortalecer as vozes de fé comprometidas com a dignidade humana e a justiça de gênero”, ressalta.
A publicação também apresenta dez recomendações estratégicas para fortalecer respostas ecumênicas e inter-religiosas diante do avanço dos fundamentalismos, das mobilizações anti-direitos e dos discursos de ódio, reafirmando que a fé pode ser uma força transformadora a serviço da justiça e da equidade.
O lançamento da publicação e a roda de diálogo Não em Nome da Fé: Fundamentalismos, regressão democrática e ataques à justiça de gênero integram a programação da Assembleia Ordinária da CESE, realizada pela primeira vez em Belém (PA). O encontro reúne representantes de organizações ecumênicas, movimentos sociais e iniciativas parceiras para refletir sobre os desafios contemporâneos da defesa dos direitos humanos, da justiça socioambiental e do fortalecimento da democracia.
Serviço
Data: 10 de junho de 2026
Horário: 18h
Local: Parque dos Igarapés
Endereço: Travessa WE12, nº 1000, Conjunto Satélite, Coqueiro, Belém (PA)
O que: Roda de Diálogo e Lançamento da Publicação
Não em Nome da Fé: Fundamentalismos, regressão democrática e ataques à justiça de gênero
Sobre o FEACT Brasil
O Fórum Ecumênico ACT Brasil (FEACT Brasil) reúne 23 organizações baseadas na fé e igrejas comprometidas com a promoção dos direitos humanos, da justiça socioambiental e da defesa do Estado Democrático Laico. A articulação integra a ACT Aliança, maior coalizão global de igrejas protestantes, ortodoxas e organizações baseadas na fé que atuam em mais de 125 países.
A CESE, organização integrante do FEACT Brasil, apoia a realização do evento em parceria com a ACT Aliança e o Fórum Ecumênico Sul-Americano (FESUR).