Solidariedade às religiões de matriz africana
20 de setembro de 2017
“Mesmo que eu tenha o dom da profecia, o saber de todos os mistérios e de todo o conhecimento, mesmo que tenha a fé mais total, a que transporta montanhas, se me falta o amor, nada sou.” (1 Co. 13.2b)
Na semana passada, acompanhamos pelas redes sociais e também jornais várias notícias sobre a destruição de terreiros, espaços sagrados para as religiões de matriz africana. De acordo com as informações, líderes religiosos dessas tradições foram forçados a destruir seus símbolos, identificados como “coisa do demônio”. As ações foram perpetradas por grupos armados com cassetetes e armas de fogo.
A responsabilidade pelos ataques foi creditada a chefes do tráfico de drogas que estariam vinculados a igrejas evangélicas. A pretexto de realizar uma “faxina espiritual” dos morros do Rio de Janeiro, recorreram a práticas de crime de intolerância religiosa para ampliar seu território, verdadeiro motivo de suas ações.
Para o CONIC, além de identificar e responsabilizar quem realiza tais atos de violência, é necessário que se realize uma profunda discussão sobre o papel da religião na sociedade brasileira. Como igrejas que dialogam ecumenicamente, não podemos aceitar nenhum tipo de intolerância e violência em nome da fé em Jesus Cristo. Cremos que essa fé nos conduz para o encontro com o outro, como fruto do amor ao próximo.
Não podemos ignorar que a perseguição contra comunidades religiosas afro-brasileiras se manifesta de diferentes maneiras. O relatório Direitos Humanos e Estado Laico da Plataforma de Direitos Humanos DHESCA (2016) aponta casos em que foram negados atendimentos na rede pública de saúde para pessoas que portavam o colar que identifica um Orixá. Crianças também têm sofrido discriminação nas escolas por causa da sua fé.
É lamentável que anos de pregação demonizando os adeptos da Umbanda e do Candomblé tenham produzido o pior dos mundos: a manifestação de um cristianismo leniente com o narcotráfico e agressivo contra os adeptos de outra religião. O fundamentalismo religioso não pode ser reconhecido como prática do Evangelho. Jesus nos desafia para a prática do amor e condena a promoção do ódio, conforme está escrito nos Evangelhos.
Assim sendo, nos colocamos ao lado do povo de terreiro para dizer não à intolerância. Reconhecemos que essas iniciativas criminosas não são coerentes com o Evangelho e violam a Constituição.
Queremos expressar a nossa solidariedade, o nosso amor fraternal e sororal a todas as comunidades religiosas afro-brasileiras, comprometendo-nos com a denúncia dos atos de intolerância, promovendo o diálogo para a superação dos preconceitos e reafirmando o estado laico como uma condição essencial para a promoção do respeito entre as religiões.
Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil
Foto: SRZD/Divulgação
VEJA O
QUE FALAM
SOBRE NÓS
A CESE completa 50 anos de testemunho de fé ativa no amor, faz jus ao seu nome. Desde o início, se colocou em defesa dos direitos humanos, denunciou atos de violência e de tortura, participou da discussão de grandes temas nacionais, apoiou movimentos sociais de libertação. Parabéns pela atuação profética, em prol da unidade e da cidadania. Que Deus continue a fazer da CESE uma benção para muitos.
Viva os 50 anos da CESE. Viva o ecumenismo que a organização traz para frente e esse diálogo intereclesial. É um momento muito especial porque a CESE defende direitos e traz o sujeito para maior visibilidade.
Há vários anos a CESE vem apoiando iniciativas nas comunidades quilombolas do Pará. A organização trouxe o empoderamento por meio da capacitação e formação para juventude quilombola; tem fortalecido também o empreendedorismo e agricultura familiar. Com o apoio da CESE e os cursos oferecidos na área de incidência política conseguimos realizar atividades que visibilizem o protagonismo das mulheres quilombolas. Tudo isso é muito importante para a garantia e a nossa permanência no território.
Ao longo desses 50 anos, fomos presenteadas pela presença da CESE em nossas comunidades. Nós somos testemunhas do quanto ela tem de companheirismo e solidariedade investidos em nossos territórios. E isso tem sido fundamental para que continuemos em luta e em defesa do nosso povo.
A família CESE também faz parte do movimento indígena. Compartilhamos das mesmas dores e alegrias, mas principalmente de uma mesma missão. É por um causa que estamos aqui. Fico muito feliz de poder compartilhar dessa emoção de conhecer essa equipe. Que venham mais 50 anos, mais pessoas comprometidas com esse espírito de igualdade, amor e fraternidade.
A gente tem uma associação do meu povo, Karipuna, na Terra Indígena Uaçá. Por muito tempo a nossa organização ficou inadimplente, sem poder atuar com nosso povo. Mas, conseguimos acessar o recurso da CESE para fortalecer organização indígena e estruturar a associação e reorganizá-la. Hoje orgulhosamente e muito emocionada digo que fazemos a Assembleia do Povo Karipuna realizada por nós indígenas, gerindo nosso próprio recurso. Atualmente temos uma diretoria toda indígena, conseguimos captar recursos e acessar outros projetos. E isso tudo só foi possível por causa da parceria com a CESE.
Há muito a celebrar e agradecer! Nestes anos todos, a CESE tem sido uma parceira importantíssima dos movimentos e organizações populares e pastorais sociais. Em muitos casos, o seu apoio foi e é decisivo para a luta, para a vitória da vida. Faz as exigências necessárias para os projetos, mas não as burocratiza nem as excede. O espírito solidário e acolhedor de seus agentes e funcionários faz a diferença. O testemunho de verdadeiro ecumenismo é uma das suas marcas mais relevantes! Parabéns a todos e todas que fazem a CESE! Vida longa!
Somos herdeiras do legado histórico de uma organização que há 50 anos dá testemunho de uma fé comprometida com o ecumenismo e a diaconia profética. Levar adiante esta missão é compromisso que assumimos com muita responsabilidade e consciência, pois vivemos em um país onde o mutirão pela justiça, pela paz e integridade da criação ainda é uma tarefa a se realizar.
A CESE é a marca do ecumenismo na defesa de direitos. É serviço aos movimentos populares nas lutas por justiça. Parabéns à Diretoria e equipe da CESE pela persistência e compromisso, sempre renovado nesses cinquenta anos, de preservação da memória histórica na defesa da democracia em nosso país.
Eu acho extraordinário o trabalho da CESE, porque ela inaugurou outro tipo de ecumenismo. Não é algo que as igrejas discutem entre si, falam sobre suas doutrinas e chegam a uma convergência. A CESE faz um ecumenismo de serviço que é ecumenismo de missão, para servir aos pobres, servir seus direitos.