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Diálogo e Articulação com Igrejas Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso

Tapiri Ecumênico fortalece redes amazônicas de enfrentamento aos fundamentalismos e às violações de direitos

29 de maio de 2026

Articulação inter-religiosa reúne organizações dos nove estados da Amazônia Legal para compartilhar impactos da iniciativa nos territórios e construir estratégias coletivas de incidência política diante do avanço da violência, do racismo ambiental e da intolerância religiosa

Dando continuidade aos trabalhos do Tapiri Ecumênico e Inter-religioso, iniciativa coordenada pela Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) que desde 2022 percorre os nove estados da Amazônia Legal denunciando violações de direitos humanos associadas aos fundamentalismos religiosos, políticos e econômicos, representantes de organizações e movimentos sociais amazônicos se reuniram para fortalecer estratégias regionais de enfrentamento a essas violências. O encontro contou com a presença de organizações dos diferentes estados da Amazônia Legal e teve como objetivo promover uma escuta coletiva sobre os impactos dos fundamentalismos nos territórios, articular ações locais de enfrentamento levando em consideração o ano eleitoral, e construir os próximos passos da mobilização, que culminará em um grande Tapiri regional.

O encontro também deu seguimento às mobilizações impulsionadas pelo Tapiri realizado durante a Cúpula dos Povos na COP30, em Belém, quando lideranças religiosas, indígenas, quilombolas, de terreiro e da sociedade civil debateram justiça climática, democracia, racismo ambiental e defesa dos territórios tradicionais.

Representantes de diferentes estados tiveram a oportunidade de compartilhar os impactos concretos deixados pelo Tapiri nos territórios. Entre os principais resultados apontados estão o fortalecimento de redes locais, a ampliação do diálogo inter-religioso, a criação de espaços institucionais de incidência política e o fortalecimento de denúncias sobre violações de direitos humanos.

Assessora de projetos da CESE, Bianca Daebs destacou que a iniciativa acumulou uma série de instrumentos políticos e de comunicação ao longo da caminhada pela Amazônia Legal. Entre eles estão cartas-denúncia construídas coletivamente, materiais sobre violações de direitos, relatórios estaduais, minidocumentários, um documentário sobre conflitos agrários no Maranhão, além da publicação “O território sagrado e suas vozes que clamam com fé” e da exposição lançada durante a COP30.

Segundo ela, a metodologia do Tapiri foi sendo aperfeiçoada a partir da escuta dos próprios territórios. “Foi a diversidade que deu identidade para cada Tapiri. Foi de uma beleza e uma diversidade que às vezes não dá pra traduzir nem nos nossos produtos nem numa conversa simples”, afirmou.

Para Vinicius, também assessor da CESE, um dos principais legados foi a construção de articulações permanentes entre organizações baseadas na fé, movimentos sociais e instituições públicas. Ele lembrou que, em diferentes estados, o Tapiri promoveu aproximações com Ministérios Públicos, defensorias e secretarias estaduais, além de internacionalizar denúncias levadas ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra. 

No Maranhão, onde uma das edições do Tapiri aconteceu dentro do Quilombo Santa Rosa dos Pretos, em Itapecuru-Mirim, Joércio Pires relembrou que o encontro ocorreu em meio a um contexto de violência e perseguição contra lideranças do território. Segundo ele, o processo fortaleceu alianças locais e também contribuiu para ampliar o diálogo entre diferentes expressões religiosas.

“No último ano a gente viu essa violência mais distante, essas lideranças saíram do Programa de Proteção, fortaleceu muito o território”, celebra.

Joércio também relacionou o fortalecimento institucional no município às articulações impulsionadas pelo Tapiri. Ele destacou que Itapecuru-Mirim passou a contar com promotores titulares e que as comunidades têm conseguido cobrar melhorias em áreas como saúde, educação e transporte.

Também no Maranhão, Maria Raimunda Braga, da Casa Fanti Ashanti, afirmou que receber o Tapiri dentro do terreiro representou um marco para as religiões de matriz africana no estado. Para ela, o encontro funcionou como “combustível” para fortalecer processos de união e luta coletiva.

No Tocantins, Rita Lopes lembrou que o Tapiri chegou ao Quilombo Rio Preto em um momento de ataques e denúncias de violações de direitos. Segundo ela, a presença da articulação fortaleceu os processos de denúncia e visibilização das violências sofridas pelas comunidades quilombolas.

José Aurélio Ferreira também destacou que o Tapiri ajudou a reconstruir diálogos entre movimentos sociais que estavam fragmentados nos últimos anos. A partir da articulação, foi criado o Conselho da Diversidade Religiosa e Igualdade Racial no estado. “Hoje a gente está mais unido do que nunca e tudo isso graças ao Tapiri”, disse.

No Acre, Sara Braga destacou o impacto do Tapiri na vida das mulheres do Seringal São Bernardo, especialmente aquelas em situação de violência. Para ela, os efeitos do encontro extrapolaram qualquer registro formal. “O que o nosso Tapiri trouxe para as mulheres que foram ameaçadas, é algo que em nenhum relatório a gente consegue descrever”, avalia.

Ela relatou que o espaço possibilitou novas formas de enfrentamento à violência de gênero em comunidades marcadas pelo fundamentalismo religioso. Mulheres que antes eram orientadas apenas a “orar” diante das agressões passaram a buscar canais de denúncia e proteção.

Em Rondônia, a Reverenda Elineide Oliviera, coordenadora da Casa Noeli dos Santos, destacou o fortalecimento das articulações em rede construídas a partir do encontro em Porto Velho. Segundo ela, o Tapiri aproximou lideranças indígenas, quilombolas e representantes da sociedade civil que antes não mantinham contato direto, mesmo atuando no mesmo estado.

Ela também ressaltou que o espaço permitiu debates sobre violência contra as mulheres, perda de tradições indígenas e apagamento das línguas originárias, além de criar um ambiente seguro para compartilhamento de experiências.

A percepção é compartilhada por Breno Vinícius, do coletivo Somar, que avalia que o Tapiri fortaleceu o diálogo ecumênico em Rondônia e ajudou a consolidar iniciativas posteriores, como uma audiência pública no Ministério Público estadual e a criação de uma rede popular de defensores de direitos humanos.

Breno também destacou os impactos pessoais e políticos da experiência enquanto integrante da comunidade LGBTQIA+ e católico. Segundo ele, o Tapiri ajudou a demonstrar que espiritualidade e luta por direitos não precisam ocupar campos opostos.

No Amazonas, Iuri Lima, da Rede Amazonizar, definiu o Tapiri como uma experiência “nova e disruptiva”. Em um contexto marcado pela intolerância religiosa e pela polarização política, ele afirmou que a iniciativa fortaleceu laços entre lideranças indígenas, representantes de religiões de matriz africana e comunidades cristãs.

Segundo Iuri, os desdobramentos do encontro contribuíram inclusive para ações de incidência na rede estadual de ensino do Amazonas, alcançando milhares de salas de aula com debates sobre racismo religioso e ecoespiritualidade.

Também no Amazonas, Deise destacou a importância do Tapiri para ampliar a participação política de mulheres indígenas em espaços como a Marcha das Mulheres Negras e atividades preparatórias da COP30 em Belém. Ela ressaltou ainda as trocas construídas entre mulheres indígenas e quilombolas durante as atividades realizadas no Amapá.

No Pará, onde o Tapiri ganhou projeção internacional durante a COP30, as organizações locais apontaram o aprofundamento do diálogo ecumênico e político como um dos principais legados do processo.

Para Alcidema Magalhães, do Comitê Dorothy, a força do Tapiri esteve tanto no evento em si quanto na construção coletiva anterior, que aproximou organizações baseadas na fé e movimentos sociais em torno de debates sobre racismo ambiental, crise climática e justiça social.

Ela relatou que, durante a COP30, o Tapiri passou a ser reconhecido como um dos espaços mais politizados entre as iniciativas religiosas presentes na programação paralela da conferência.

Mãe Nalva, yalorixá do Instituto Afrobrasileiro e Cultural Ilê Yabaomim, afirmou que o Tapiri representou um espaço de respeito e escuta para lideranças de religiões de matriz africana, frequentemente invisibilizadas em grandes eventos ambientais.

“Quando perguntavam se a gente ia participar da COP, nós tínhamos sido convidados sempre para fazer ‘dancinha’. E no Tapiri a gente se sente respeitado, é o reconhecimento desse povo com a sua tradição, a sua cultura, o seu saber”, declarou.

Também no Pará, o reverendo Ives Vergara comparou o papel do Tapiri ao conceito da “igreja ponte”, expressão historicamente associada à tradição anglicana. Para ele, a iniciativa conseguiu conectar diferentes movimentos, etnias e lutas em um momento de forte fragmentação política e social.

No Mato Grosso, Tafnys Hadassa relembrou que o Tapiri de 2024 ocorreu em meio aos debates sobre legislações que ameaçavam populações ribeirinhas e trabalhadores da pesca. Ela afirmou que a iniciativa fortaleceu tanto a atuação política quanto a estrutura institucional da organização.

Já Herman Oliveira, secretário do Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Formad), relacionou o processo do Tapiri ao fortalecimento do recém-criado Conselho Estadual de Povos e Comunidades Tradicionais. Segundo ele, o encontro ajudou a projetar vozes historicamente invisibilizadas, como povos de terreiro e comunidades ciganas. Ao mesmo tempo, o secretário alertou para o desafio de manter as redes articuladas após os encontros presenciais. 

No Amapá, Mãe Carmen Sheila destacou que o Tapiri ampliou o alcance político das organizações de matriz africana no estado, fortalecendo articulações junto ao Ministério Público e à Defensoria Pública. Segundo ela, o processo resultou na criação de um fórum permanente em defesa dos povos tradicionais de matriz africana.

“O Tapiri veio nessa transformação mostrando que as mãos sempre vão estar unidas independente da religião, raça, cor, gênero. O Tapiri é essa escola”, afirmou.

Também no estado, Rivana Lino destacou que o intercâmbio entre territórios ajudou a construir pautas coletivas e ampliar a compreensão sobre os desafios comuns enfrentados pelas comunidades amazônicas. “Hoje a gente consegue ter uma pauta única, a gente antigamente não conseguia isso”, disse.

Em Roraima, Nelita Frank, da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), afirmou que a experiência do Tapiri fortaleceu debates sobre racismo ambiental, intolerância religiosa e os impactos das mudanças climáticas sobre mulheres negras, indígenas e quilombolas. Ela destacou ainda a importância metodológica do encontro, baseada na troca de experiências e construção coletiva de soluções.

Diante dos impactos observados por lideranças de toda a região Norte que atuam na ponta, o movimento irá seguir a partir de um novo edital anunciado pela CESE e voltado às organizações que participaram dos Tapiris estaduais. A proposta é apoiar projetos de incidência política voltados ao enfrentamento dos fundamentalismos religiosos, políticos e econômicos, estimulando ações construídas em parceria entre movimentos sociais, organizações baseadas na fé e coletivos dos territórios amazônicos.

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