Projeto conecta sustentabilidade e geração de renda para mulheres no Pará
29 de maio de 2026
Encontrar soluções para um único problema que atinge determinada comunidade, já é algo desafiador. Mas constatar duas problemáticas distintas, e a partir delas arquitetar caminhos para superação de ambas, vai além de unir o útil ao agradável. A Associação de Desenvolvimento Comunitário de Santa Maria do Pará (ADESC/PA) atua desde 1988 no município, conhecido como a “Cidade Trevo” por sua posição estratégica entre as rodovias BR-316 (ligando o Pará ao Nordeste) e BR-010 (ligando ao Sul do país).
Tempo suficiente para realizar ao menos dois diagnósticos. O primeiro, é que Santa Maria do Pará enfrenta sérios problemas relacionados à gestão de resíduos sólidos. Atualmente, de acordo com a Associação, o lixo é descartado a céu aberto, a apenas dois quilômetros do centro urbano. Situação que gera acúmulo de poluentes e impacta negativamente o meio ambiente e a saúde da população.
Com os anos e a partir de uma escuta atenta da comunidade, o grupo também passou a observar outra realidade que abate a Cidade Trevo: muitas mulheres enfrentam dificuldades de inserção no mercado de trabalho e dependência financeira, além de lidarem com sobrecargas relacionadas ao cuidado da família e às demandas diárias.
Foi a partir dessa constatação que a ADESC/PA, que já desenvolvia ações para reduzir o volume de lixo descartado incorretamente no território, idealizou o projeto Mãos que Transformam: Artesanais Criativas e Sustentáveis. Entendendo que o artesanato poderia se tornar uma possibilidade de geração de renda, bem como um espaço de fortalecimento da autoestima e do empoderamento feminino, a Associação deu início a oficinas de corte, costura e customização sustentável; de artesanato com materiais recicláveis; de crochê; e ainda de capacitação para produção e comercialização.
“O projeto buscou unir essas duas dimensões: o fortalecimento das mulheres e a sustentabilidade, incentivando práticas artesanais ligadas à reutilização e à criatividade sustentável”, afirma Floriano Lucas Cardoso, vice-presidente da organização.
Além das oficinas, o projeto também promoveu palestras educativas abordando temas como práticas agroecológicas, reflorestamento, economia circular, consumo consciente e a importância da reciclagem para a preservação ambiental e o desenvolvimento sustentável. Também organizou campanhas e ações de mobilização junto à comunidade para a seleção, coleta e correta destinação de materiais recicláveis, fortalecendo a conscientização ambiental e incentivando a participação popular.
Todas essas ações foram apoiadas pelo Programa de Dupla Participação de CESE, no qual antes de receber os recursos da Coordenadoria, a organização proponente precisa mobilizar metade dos recursos de que necessita para desenvolver seu projeto.
“Foi uma experiência muito importante para a ADESC/PA, porque além do financiamento do projeto, estimulou a construção de redes de apoio e de corresponsabilidade em torno da iniciativa”, conta Floriano.
O vice-presidente explica que a principal ação de mobilização de recursos ocorreu por meio da articulação com parceiros locais e apoiadores institucionais, que fizeram doações financeiras, além de outros tipos de apoios. O processo, segundo ele, também levou a fortalecer estratégias de mobilização comunitária e de visibilidade do projeto.
“A realização da I Feira Solidária da ADESC/PA, por exemplo, foi um momento importante para a comercialização das peças produzidas pelas participantes e também para aproximar a comunidade, ampliando o reconhecimento das ações desenvolvidas. Entre os principais aprendizados, destacamos a compreensão de que a mobilização de recursos é um processo construído coletivamente e que depende muito da confiança estabelecida entre a organização, os parceiros e a comunidade”, completa.
A despeito do desafio de realizar esse processo respeitando o tempo e as condições da organização e das participantes, que são públicos em situação de vulnerabilidade, a experiência fortaleceu a capacidade de articulação institucional e mostrou caminhos possíveis para futuras ações de sustentabilidade financeira.
Floriano relata que o apoio do Programa foi fundamental para que o projeto pudesse acontecer de maneira estruturada e sensível às realidades das participantes. “O edital possibilitou que a ADESC/PA desenvolvesse ações com maior flexibilidade, respeitando os tempos e as condições de permanência das participantes ao longo do processo”, avalia ele, que também chama atenção para a importância do apoio para fortalecer institucionalmente a própria organização.
O projeto alcançou aproximadamente 100 mulheres, promovendo aprendizagens técnicas, e contribuindo para o fortalecimento da autoestima, ampliação dos vínculos comunitários e incentivo à autonomia financeira. “Além disso, o projeto demonstrou que ações voltadas ao empreendedorismo feminino podem produzir impactos que vão além da dimensão econômica. Muitas participantes passaram a enxergar o artesanato também como espaço de acolhimento, cuidado emocional, convivência e valorização pessoal”, finaliza.
Sobre o Programa de Dupla Participação
A CESE, com mais de cinco décadas de atuação no apoio a organizações e movimentos populares, desenvolve o Programa de Dupla Participação (PDP) como uma estratégia para fortalecer a sustentabilidade financeira e a autonomia das lutas por direitos no Brasil. Esta forma de apoio incentiva que os próprios grupos mobilizem parte dos recursos necessários para suas ações, especialmente nos territórios em que atuam, potencializando esse esforço com o apoio complementar da CESE.
A mobilização de recursos locais também contribui para o fortalecimento político das organizações, ampliando vínculos comunitários, alianças e capacidades de articulação coletiva.
Quer enviar um projeto para a CESE por meio do PDP? Confira alguns exemplos de iniciativas que podem ser apoiadas:
1. Oficinas e cursos de formação
2. Encontros, assembleias e seminários comunitários
3. Campanhas em defesa de direitos
4. Mobilizações, incidência política e atos públicos
5. Ações de comunicação popular e comunitária
6. Produção de materiais pedagógicos e informativos
7. Intercâmbios e trocas de experiências entre grupos
8. Iniciativas de fortalecimento organizativo e institucional
9. Ações de defesa de territórios, águas, florestas e modos de vida
10. Articulações em redes e fóruns
No PDP, a organização deve indicar, na proposta, o valor que pretende mobilizar e as estratégias para arrecadar os recursos.
Clique aqui para acessar os roteiros específicos do Programa de Dupla Participação (PDP).