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Projeto Dabucury: produção de castanha é fonte de sustento e resistência do povo Apurinã, no Amazonas

13 de julho de 2026

Na Terra Indígena (TI) Kamikuã, no município de Boca do Acre (AM), a castanha, historicamente, é um polo dinâmico que fortalece a resistência do povo Apurinã. Reunindo tradição, cultura e geração de renda, a produção da semente contribui com o desenvolvimento sustentável e a organização comunitária, sendo um importante caminho de enfrentamento aos diversos impactos socioambientais enfrentados pela TI.

Para fortalecer a sustentabilidade econômica, a preservação ambiental e a valorização cultural da TI Kamikuã, a comunidade tem desenvolvido o projeto “Maky – Fortalecimento da Cadeia Produtiva da Castanha Apurinã”. A iniciativa, que conta com o apoio do Dabucury, busca não apenas estruturar o processo de beneficiamento da castanha, como também contribuir com a formação e capacitação das famílias, principalmente das mulheres, em temas que vão do plantio até à comercialização das peças artesanais produzidas a partir da semente.

Letícia Yawanawá, coordenadora do Instituto Runyn Pupykary Yawanawá, que desenvolve o projeto, conta que a castanha faz parte do dia a dia das famílias, desde o trabalho até sua própria alimentação. 

“A castanha é um hábito tradicional para comer com carne de caça, com peixe seco, com tantas outras misturas, com arroz mesmo, com feijão, é muito gostoso comer a castanha. E também, no período da castanha, todos os parentes estão no mato colhendo castanha para vender. É o momento em que eles têm um dinheirinho para ter o seu próprio sustento retirado da floresta”.

Ampliação da produção

 O projeto prevê a realização de diversas ações, como oficinas práticas sobre Sistemas Agroflorestais (SAFs), elaboração de plano de negócios voltado à cadeia produtiva de castanha e capacitação de mulheres no beneficiamento de castanha cristalizada, que atualmente já é comercializada por algumas delas. 

“Quando tem algum evento, aqui também nós recebemos algumas pessoas de outros países, de outros lugares, para fazer a cerimônia, elas [as castanhas cristalizadas] vendem muito bem. As mulheres querem aprender para que elas possam vender, tanto aqui como na cidade. Isso também ajuda na sua sustentabilidade, vai ajudar as mulheres que não têm renda”, destaca Letícia.

A coordenadora explica que um dos objetivos das mulheres é também ampliar a produção para peças artesanais com o ouriço da castanha, sua parte mais rígida, que pode virar diversos produtos.

“A castanha foi colhida no período de novembro a março. Depois desse período, nós estamos nos preparando para fazer o uso do ouriço da castanha. Estamos nos preparando para fazer 300 copos, porta-joias, vasinhos para colocar vela, com o ouriço da castanha.  Eu estava no aeroporto e era muito caro, quase 70 reais um copo de ouriço de castanha. Então eu fiz a foto, trouxe, a gente começou a fazer, a gente vendeu um pouquinho, agora vamos fazer de novo.”, conta.

 Novos horizontes de resistência

Localizada no sul do Amazonas, próxima à fronteira com o Acre, a TI Kamikuã tem enfrentado inúmeros desafios, como o desmatamento, a invasão de madeireiros e impactos socioambientais causados pelas mudanças climáticas. Atualmente, a região sofre com secas prolongadas nos rios, aumento das temperaturas e redução dos recursos naturais, o que coloca em risco a biodiversidade e a sobrevivência do povo Apurinã.

Diante desse cenário, Letícia destaca que a iniciativa tem contribuído com a ampliação dos horizontes da comunidade, apontando novas estratégias de resistência e organização.

“Castanha não é só vender para os atravessadores, né? Esse projeto está abrindo as informações, está trazendo mais informações, está trazendo coisas que a gente não sabia”, destaca.

Para a coordenadora, o Dabucury tem sido um importante caminho para potencializar o que os povos indígenas já fazem historicamente: atuar como verdadeiros guardiões da natureza.

“A importância do Dabucury para fortalecer o povo indígena da região e defender o meio ambiente é muito grande, porque nós vamos poder, cada vez mais, ampliar o nosso plantio desse projeto, plantar as nossas frutas nativas, continuar. A gente já faz isso tradicionalmente, mas a gente quer continuar a fazer isso.”

Nesse sentido, o objetivo agora é tornar o projeto uma iniciativa permanente, mobilizando outros recursos da comunidade para garantir que as atividades sigam em movimento.

“Nós podemos fazer o projeto e fazer um trabalho contínuo, né? Um trabalho contínuo, usando o beneficiamento para o bem do povo, e usar nossos próprios veículos, que é o quadriciclo, que é o barco, essas coisas, para dar a continuidade do projeto. E o nosso compromisso é isso, que daqui eles também possam buscar cada vez mais apoio e também que a comunidade tenha força de vontade de poder dar a continuidade desse trabalho”, ressalta Letícia, esperançosa.

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