Resistência das feministas negras e populares
17 de maio de 2018
ebates políticos e teóricos bastante difundidos no Brasil em geral enxergam o feminismo como um movimento composto por mulheres de classe média, brancas e com formação universitária. Por perceber outra realidade, a CESE (Coordenadoria Ecumênica de Serviço) e o SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia, promoveram um debate sobre a resistência das mulheres e, na ocasião, lançaram duas publicações que dão visibilidade à luta das mulheres negras das classes populares, que estavam no feminismo desde o início, organicamente vinculadas e auto-identificadas como feministas, mas que, ao longo dos últimos quarenta anos, foram invisibilizadas pela a leitura que se fazia do movimento feminista.
No livro Feminismo Popular e lutas antissistêmicas a autora Carmen Silva descreve como a mídia composta por jornais e revistas de grande circulação acentuava, há seis anos, o fim do feminismo, que já não seria necessário frente às conquistas realizadas pelas mulheres. Também se dizia que as mulheres, especialmente as mais pobres, desejam não ter que trabalhar fora de casa, para serem mães mais tranquilas, e que toda esta ideia de trabalhar fora teria sido imposta pelas reivindicações feministas. A partir de sua vivência como integrante do movimento feminista, a educadora afirma seu espanto diante deste “mundo das mulheres” veiculado na mídia, por conviver com muitas para as quais o trabalho com rendimentos não apenas era desejado como imprescindível para o sustento, e realizado com a sobrecarga das tarefas domésticas, não valorizadas socialmente e não remuneradas.
Apesar de todas essas dificuldades políticas que enfrentam, o movimento de mulheres negras e de setores populares cresceu e se tornou mais visível. Em 2015, grandes mobilizações de mulheres ocorreram em Brasília: Marcha das Margaridas, com mais de 70 mil, e a Marcha das Mulheres Negras, que reuniu mais de 30 mil. Estas manifestações demonstraram a força destas mulheres unidas em resistência não apenas para a população brasileira, mas principalmente para o próprio movimento.
Mulheres Negras e Populares: experiências que se entrelaçam é uma publicação que sistematiza as vivências com mais de 82 organizações de mulheres negras e de setores populares do Norte e Nordeste que nos últimos três anos participaram da Ação que deu apoio a diversas estratégias desenvolvidas e propostas pelas próprias mulheres das organizações apoiadas. A publicação documenta várias organizações que foram criadas ou fortalecidas nesse período: tanto articulações locais, como a Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e a Rede de Mulheres Negras do Rio Grande do Norte; como também redes regionais, como a Rede de Mulheres Negras do Nordeste e a Rede Fulanas, que reúne várias organizações da região norte. Para uma das coordenadoras do projeto, Silvia Camurça (SOS Corpo), a auto-organização é o que de mais radical as mulheres podem fazer para enfrentar tudo aquilo que as oprime e explora.
O lançamento dos livros foi realizado na Universidade Federal do Pará, em Belém, no auditório A, no Centro de Educação. As convidadas Carmen Silva, do SOS Corpo, Rosana Fernandes, da CESE, e Maria Malcher, da Rede Fulanas conversam com o público sobre o fortalecimento do movimento negro e popular organizado e liderado por mulheres e suas histórias de resistência.
VEJA O
QUE FALAM
SOBRE NÓS
Comecei a aproximação com a organização pelo interesse em aprender com fundo de pequenos projetos. Sempre tivemos na CESE uma referência importante de uma instituição que estava à frente, na vanguarda, fazendo esse tipo de apoio com os grupos, desde antes de outras iniciativas existirem. E depois tive oportunidade de participar de outras ações para discutir o cenário político e também sobre as prioridades no campo socioambiental. Sempre foi uma troca muito forte.
A relação de cooperação entre a CESE e Movimento Pesqueiro é de longa data. O apoio político e financeiro torna possível chegarmos em várias comunidades pesqueiras no Brasil para que a gente se articule, faça formação política e nos organize enquanto movimento popular. Temos uma parceria de diálogos construtivos, compreensível, e queremos cada vez mais que a CESE caminhe junto conosco.
Há muito a celebrar e agradecer! Nestes anos todos, a CESE tem sido uma parceira importantíssima dos movimentos e organizações populares e pastorais sociais. Em muitos casos, o seu apoio foi e é decisivo para a luta, para a vitória da vida. Faz as exigências necessárias para os projetos, mas não as burocratiza nem as excede. O espírito solidário e acolhedor de seus agentes e funcionários faz a diferença. O testemunho de verdadeiro ecumenismo é uma das suas marcas mais relevantes! Parabéns a todos e todas que fazem a CESE! Vida longa!
Eu acho extraordinário o trabalho da CESE, porque ela inaugurou outro tipo de ecumenismo. Não é algo que as igrejas discutem entre si, falam sobre suas doutrinas e chegam a uma convergência. A CESE faz um ecumenismo de serviço que é ecumenismo de missão, para servir aos pobres, servir seus direitos.
Conheço a CESE desde 1990, através da Federação de Órgãos para Assistência Social (FASE) no apoio a grupos de juventude e de mulheres. Nesse sentido, foi uma organização absolutamente importante. E hoje, na função de diretor do Programa País da Heks no Brasil, poder apoiar os projetos da CESE é uma satisfação muito grande e um investimento que tenho certeza que é um dos melhores.
Somos herdeiras do legado histórico de uma organização que há 50 anos dá testemunho de uma fé comprometida com o ecumenismo e a diaconia profética. Levar adiante esta missão é compromisso que assumimos com muita responsabilidade e consciência, pois vivemos em um país onde o mutirão pela justiça, pela paz e integridade da criação ainda é uma tarefa a se realizar.
A família CESE também faz parte do movimento indígena. Compartilhamos das mesmas dores e alegrias, mas principalmente de uma mesma missão. É por um causa que estamos aqui. Fico muito feliz de poder compartilhar dessa emoção de conhecer essa equipe. Que venham mais 50 anos, mais pessoas comprometidas com esse espírito de igualdade, amor e fraternidade.
Celebrar os 50 anos da CESE é reconhecer uma caminhada cristã dedicada a defesa dos direitos humanos em todas as suas dimensões, comprometida com os segmentos mais vulnerabilizados da população brasileira. E valorizar cada conquista alcançada em cada luta travada na busca da justiça, do direito e da paz. Fazer parte dessa caminhada é um privilégio e motivo de grande alegria poder mais uma vez nos regozijar: “Grande coisas fez o Senhor por nós, e por isso estamos alegres!” (Salmo 126.3)
A gente tem uma associação do meu povo, Karipuna, na Terra Indígena Uaçá. Por muito tempo a nossa organização ficou inadimplente, sem poder atuar com nosso povo. Mas, conseguimos acessar o recurso da CESE para fortalecer organização indígena e estruturar a associação e reorganizá-la. Hoje orgulhosamente e muito emocionada digo que fazemos a Assembleia do Povo Karipuna realizada por nós indígenas, gerindo nosso próprio recurso. Atualmente temos uma diretoria toda indígena, conseguimos captar recursos e acessar outros projetos. E isso tudo só foi possível por causa da parceria com a CESE.
A CESE foi criada no ano mais violento da Ditadura Militar, quando se institucionalizou a tortura, se intensificaram as prisões arbitrárias, os assassinatos e os desaparecimentos de presos políticos. As igrejas tiveram a coragem de se reunir e criar uma instituição que pudesse ser um testemunho vivo da fé cristã no serviço ao povo brasileiro. Fico muito feliz que a CESE chegue aos 50 anos aperfeiçoando a sua maturidade.