Projeto impulsiona autonomia econômica de mulheres e fortalece ações de cuidado coletivo no Calafate, em Salvador (BA)
19 de junho de 2026
Iniciativa do Coletivo de Mulheres do Calafate promove formação, autocuidado, economia solidária e fortalecimento político de ativistas da comunidade, com apoio da CESE
Nos diferentes bairros, comunidades, territórios ou povoados, é comum que os moradores tenham facilidade em apontar diversas mulheres que exercem papel fundamental, se dedicando ao cuidado de outras pessoas, à organização comunitária e às ações culturais e sociais, mas quase sempre sem acesso à renda estável, à formação continuada ou a oportunidades concretas de fortalecimento econômico. Mulheres que, além das dificuldades econômicas, enfrentam sobrecarga de trabalho e pouca valorização de seus saberes e práticas.
Essa realidade não é diferente no Calafate, comunidade localizada em Salvador (BA), área residencial popular conhecida por sua capacidade de superar desafios e encontrar soluções criativas, através de iniciativas locais que buscam melhorar a qualidade de vida das moradoras. De acordo com o Coletivo de Mulheres do Calafate, entre os desafios que a comunidade enfrenta estão a desigualdade social e econômica, falta de acesso a serviço básico, violência e insegurança. Em contrapartida, reúne iniciativas de desenvolvimento comunitário, preservação cultural, educação e capacitação e de turismo comunitário.
Criado em 1992, o Coletivo é uma dessas iniciativas, que promove atividades no enfrentamento das violências contra as mulheres. Diante da análise do atual contexto comunitário, elas constataram a necessidade de fortalecer o autocuidado e cuidado coletivo como uma importante estratégia dessa luta.
Assim, desenvolveram o projeto Trilhas Feministas: autocuidado, cuidado coletivo e sustentação da vida, visando investir esforços para melhorar as condições de vida (subjetiva e objetivamente), trabalho (reprodutivo e produtivo) e fortalecer as forças vitais das ativistas do próprio Coletivo.
“Essa realidade aprofunda desigualdades sociais e limita a autonomia financeira dessas mulheres. Percebemos também que esse cenário de desigualdades impacta diretamente a participação política das mulheres e sua presença nos espaços de decisão”, avalia Marta Leiro, integrante do Coletivo.
Para ela, a necessidade de atuar nessa questão ficou ainda mais evidente a partir das cirandas de autocuidado e cuidado coletivo, dos encontros e das trocas promovidas pela organização. Nesses espaços, as participantes compartilharam desafios relacionados ao desemprego, à informalidade, à dificuldade de acesso a políticas públicas e ao desgaste emocional provocado pelas múltiplas jornadas de trabalho.
Foi dentro desse contexto que o projeto foi pensado como uma estratégia de fortalecimento coletivo, geração de oportunidades, valorização das trajetórias dessas ativistas e sustentação da vida. “A proposta busca criar condições para que elas ampliem sua autonomia, fortaleçam suas redes de apoio, desenvolvam iniciativas sustentáveis e tenham acesso a espaços de formação, cuidado e participação social”, completa.
Entre as atividades, foram realizados três momentos de formação, chamados de cirandas formativas, abordando os temas das Teorias Organizativas, Elaboração de Projetos e Cooperativismo, numa perspectiva feminista e economia solidária.
Também foram produzidos os chamados ‘giros sabidos’, sobre educação financeira, endividamento, instrumentos técnicos, uso das redes sociais, precificação, entre outros. Além dos ‘giros malabaristas da economia’, que apresentaram os serviços e produtos comercializados por cada participantes do projeto.
A iniciativa promoveu ainda duas imersões de autocuidado e cuidado coletivo, fortalecendo a prática política como uma estratégia para a sustentação da vida. Por fim, o Coletivo realizou um lançamento em formato de feira comunitária, com apresentação dos produtos e serviços comercializados pelas ativistas do Coletivo de Mulheres do Calafate.
“O projeto representa um compromisso com a construção de relações mais justas, solidárias e inclusivas, reconhecendo que combater desigualdades também significa investir no protagonismo e na dignidade das mulheres que atuam na transformação social de seus territórios”, pondera Marta Leiro.
Para alcançar todos os objetivos em torno do projeto, da redução da desigualdade social e econômica das ativistas, passando pela melhoria da qualidade de vida e da saúde dessas mulheres, e finalmente implementado uma iniciativa autogestionaria e econômica na comunidade, o Coletivo contou com o apoio da CESE.
Para Marta, o desenvolvimento do projeto a partir da metodologia de dupla participação foi um processo desafiador, mas também muito potente no fortalecimento da autonomia e da mobilização coletiva do grupo. Ela explica que desde o início do processo, o grupo compreendeu que a contrapartida não seria apenas uma exigência financeira, mas também uma oportunidade de ampliar o envolvimento comunitário, fortalecer redes de apoio e reafirmar a importância social da iniciativa.
Para arrecadar a outra metade do recurso necessário, o Coletivo organizou uma campanha de contribuição via PIX entre as ativistas que integram o grupo. Apesar da realidade econômica das integrantes e da comunidade impactar diretamente a capacidade de arrecadação, exigindo muito esforço, criatividade e persistência, elas foram até o fim.
“Essa etapa trouxe aprendizados importantes. Um deles foi perceber a força da coletividade e da confiança construída ao longo da trajetória do Coletivo. Além das contribuições financeiras, outras pessoas apoiaram oferecendo serviços, espaços e suporte logístico, fortalecendo ainda mais o sentimento de pertencimento e de corresponsabilidade em torno do projeto”, detalha.
A ativista acredita que, em um cenário marcado pelo descrédito e pela desmobilização de iniciativas coletivas, atravessado pela lógica do individualismo, o Programa se tornou um importante instrumento de incentivo à participação, à solidariedade e à construção comunitária.
“Com esse apoio, foi possível desenvolver ações voltadas para o fortalecimento econômico, emocional e político das participantes. O recurso contribuiu diretamente para a aquisição de materiais, organização das atividades, fortalecimento da comunicação e criação de espaços de cuidado, escuta e acolhimento. A experiência contribuiu para o amadurecimento organizativo do Coletivo, gerando mudanças na sua forma de atuação política, social e econômica”, finaliza.
Sobre o Programa de Dupla Participação
A CESE, com mais de cinco décadas de atuação no apoio a organizações e movimentos populares, desenvolve o Programa de Dupla Participação (PDP) como uma estratégia para fortalecer a sustentabilidade financeira e a autonomia das lutas por direitos no Brasil. Esta forma de apoio incentiva que os próprios grupos mobilizem parte dos recursos necessários para suas ações, especialmente nos territórios em que atuam, potencializando esse esforço com o apoio complementar da CESE.
A mobilização de recursos locais também contribui para o fortalecimento político das organizações, ampliando vínculos comunitários, alianças e capacidades de articulação coletiva.
Quer enviar um projeto para a CESE por meio do PDP? Confira alguns exemplos de iniciativas que podem ser apoiadas:
1. Oficinas e cursos de formação
2. Encontros, assembleias e seminários comunitários
3. Campanhas em defesa de direitos
4. Mobilizações, incidência política e atos públicos
5. Ações de comunicação popular e comunitária
6. Produção de materiais pedagógicos e informativos
7. Intercâmbios e trocas de experiências entre grupos
8. Iniciativas de fortalecimento organizativo e institucional
9. Ações de defesa de territórios, águas, florestas e modos de vida
10. Articulações em redes e fóruns
No PDP, a organização deve indicar, na proposta, o valor que pretende mobilizar e as estratégias para arrecadar os recursos.
Clique aqui para acessar os roteiros específicos do Programa de Dupla Participação (PDP).