Justiça de Gênero e Controle dos Corpos das Mulheres
29 de junho de 2022
“Ponha esta mulher para fora daqui e tranque a porta”. 2 Samuel 13.17
Tamar integra a genealogia de Jesus. Foi estuprada, mandada embora e portas foram fechadas. Tamar está entre nós, nas meninas, adolescentes, na vida de todas as mulheres cujos corpos permanecem controlados pela força da violência, do julgamento e do silenciamento patriarcais.
Mais uma vez, o mundo se movimenta para controlar o corpo das mulheres e meninas e estupradas e grávidas em decorrência da violência misógina. Não valem nem a invocação de seu direito à interrupção de uma gravidez ou à entrega de uma criança recém nascida para a adoção.
No Brasil, uma menina de 10 anos foi vítima de estupro e de uma gravidez, revitimizada pelo Judiciário e pelo fundamentalismo religioso, enviada para um abrigo e lá trancada para manter uma gravidez fruto da violência do patriarcado.
Uma jovem atriz, vítima de estupro e que colocou o bebê para adoção, tem o sigilo do processo violado dentro do hospital que deveria proteger, por força da lei, a sua privacidade. A mídia patriarcalizada promove uma exposição condenatória pública, mais uma vez. É mais uma mulher julgada e condenada. Quantas portas fechadas e pedras nas mãos.
São cruéis as manifestações de julgamento religioso e moral. O direito à interrupção da gravidez legal foi cerceado em alguns estados dos EUA, com a revisão do caso Roe vs Wade. Esta decisão coloca em maior vulnerabilidade as mulheres migrantes, negras e latinas.
O governo brasileiro criou um manual que incentiva a investigação de vítimas de estupro que tentam acessar a interrupção legal da gravidez. Até quando o estado, a igreja e os estupradores continuarão controlando e violentando a vida das mulheres? Quem está verdadeiramente defendendo a vida?
Os corpos das mulheres são vistos como propriedade do estado, da igreja e da sociedade. Homens brancos, heteros e cristãos, em sua maioria, controlam e estupram a infância, a adolescência e o futuro de muitas mulheres. E depois seguem suas vidas, fechando e trancando suas portas de poder. No livro de Êxodo (23.2), encontramos uma passagem que fala a respeito da justiça: “Não siga a maioria, quando ela faz o que é errado e não dê testemunho falso para ajudar a maioria a torcer a justiça.”
Como pessoas religiosas devemos lutar pela integridade da criação, mas também pela integridade dos nossos atos, ampliando este alcance para o cuidado físico, psicológico, social e espiritual das pessoas, em especial das mulheres. A questão não é o que é certo ou errado. A questão é: a quem cabe decidir e julgar?
Que o corpo e a alma das mulheres continuem sendo espaço de insurgência e rebeldia contra o sistema que teima em tentar nos controlar!
“…. Um homem não te define
Sua casa não te define
Sua carne não te define (você é seu próprio lar)…”
Composição: Sebástian Piracés-Ugarte / Rafael Gomes / Mateo Piracés-Ugarte / Andrei Martinez Kozyreff / Juliana Strassacapa
VEJA O
QUE FALAM
SOBRE NÓS
A CESE completa 50 anos de testemunho de fé ativa no amor, faz jus ao seu nome. Desde o início, se colocou em defesa dos direitos humanos, denunciou atos de violência e de tortura, participou da discussão de grandes temas nacionais, apoiou movimentos sociais de libertação. Parabéns pela atuação profética, em prol da unidade e da cidadania. Que Deus continue a fazer da CESE uma benção para muitos.
Ao longo desses 50 anos, fomos presenteadas pela presença da CESE em nossas comunidades. Nós somos testemunhas do quanto ela tem de companheirismo e solidariedade investidos em nossos territórios. E isso tem sido fundamental para que continuemos em luta e em defesa do nosso povo.
Viva os 50 anos da CESE. Viva o ecumenismo que a organização traz para frente e esse diálogo intereclesial. É um momento muito especial porque a CESE defende direitos e traz o sujeito para maior visibilidade.
Conheço a CESE desde 1990, através da Federação de Órgãos para Assistência Social (FASE) no apoio a grupos de juventude e de mulheres. Nesse sentido, foi uma organização absolutamente importante. E hoje, na função de diretor do Programa País da Heks no Brasil, poder apoiar os projetos da CESE é uma satisfação muito grande e um investimento que tenho certeza que é um dos melhores.
Somos herdeiras do legado histórico de uma organização que há 50 anos dá testemunho de uma fé comprometida com o ecumenismo e a diaconia profética. Levar adiante esta missão é compromisso que assumimos com muita responsabilidade e consciência, pois vivemos em um país onde o mutirão pela justiça, pela paz e integridade da criação ainda é uma tarefa a se realizar.
Celebrar os 50 anos da CESE é reconhecer uma caminhada cristã dedicada a defesa dos direitos humanos em todas as suas dimensões, comprometida com os segmentos mais vulnerabilizados da população brasileira. E valorizar cada conquista alcançada em cada luta travada na busca da justiça, do direito e da paz. Fazer parte dessa caminhada é um privilégio e motivo de grande alegria poder mais uma vez nos regozijar: “Grande coisas fez o Senhor por nós, e por isso estamos alegres!” (Salmo 126.3)
Há vários anos a CESE vem apoiando iniciativas nas comunidades quilombolas do Pará. A organização trouxe o empoderamento por meio da capacitação e formação para juventude quilombola; tem fortalecido também o empreendedorismo e agricultura familiar. Com o apoio da CESE e os cursos oferecidos na área de incidência política conseguimos realizar atividades que visibilizem o protagonismo das mulheres quilombolas. Tudo isso é muito importante para a garantia e a nossa permanência no território.
Minha história com a CESE poderia ser traduzida em uma palavra: COMUNHÃO! A CESE é uma Família. Repito: uma Família! Nos dois mandatos que estive como presidente da CESE pude experimentar a vivência fraterna e gostosa de uma equipe tão diversificada em saberes, experiências de fé, histórias de vida, e tão unida pela harmonia criada pelo Espírito de Deus e pelo único desejo de SERVIR aos mais pobres e vulneráveis na conquista e defesa dos seus direitos fundamentais. Louvado seja Deus pelos 50 anos de COMUNHÃO e SERVIÇO da CESE! Gratidão por tudo e para sempre!
Comecei a aproximação com a organização pelo interesse em aprender com fundo de pequenos projetos. Sempre tivemos na CESE uma referência importante de uma instituição que estava à frente, na vanguarda, fazendo esse tipo de apoio com os grupos, desde antes de outras iniciativas existirem. E depois tive oportunidade de participar de outras ações para discutir o cenário político e também sobre as prioridades no campo socioambiental. Sempre foi uma troca muito forte.
A CESE é a marca do ecumenismo na defesa de direitos. É serviço aos movimentos populares nas lutas por justiça. Parabéns à Diretoria e equipe da CESE pela persistência e compromisso, sempre renovado nesses cinquenta anos, de preservação da memória histórica na defesa da democracia em nosso país.