FOSPA 2022: Fundos discutem caminhos para atuação e fortalecimento conjunto
04 de agosto de 2022

Para fortalecer o movimento indígena, povos e comunidades tradicionais, e enfrentar os desafios das violações de direitos, ameaças a biodiversidade, mudanças climáticas, empobrecimento da população e perda cultural na Amazônia brasileira, organizações têm buscado caminhos diversos para garantir sua autonomia. Os fundos comunitários e autônomos têm sido a alternativa para gestão direta e compartilhamento de recursos com grupos locais. Para aprofundar essa discussão os fundos: Dema, Podaali, Babaçu e Puxirum e a CESE organizaram o Seminário “Fundos Socioambientais pela Autonomia dos Povos da Amazônia”, durante Fórum Social Pan-Amazônico em 2022, em Belém.
O seminário dialogou sobre a atuação política dos Fundos comunitários na Amazônia, bem como o desenvolvimento de ações estratégicas no apoio ao protagonismo de povos indígenas, comunidades quilombolas e populações tradicionais voltado à garantia de direitos e à defesa dos bens comuns. Foram apresentadas experiências diversas na área de gestão de fundos. As pessoas convidadas para o debate abordaram em que contexto surgiram os fundos, os esforços de comunicação para alcançar grupos locais, as formas de apoio, o fortalecimento e a autonomia dos povos da Amazônia.


Para Maria Alaídes, representante do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu/Fundo Babaçu, os fundos de um modo geral têm sido cada vez mais reconhecidos como instrumentos importantes para fazer as doações chegarem aos grupos, com menos burocracia e mais proximidades das realidades locais: “Sabemos o que é ser povo e comunidade tradicional, mulher e extrativista da Amazônia, e quais são as necessidades para o fortalecimento. Tratamos o fundo como um beneficiamento de todas as pessoas e uma partilha coletiva. E isso está intrinsicamente associado ao nosso modo de viver, aos valores existentes e ao nosso conhecimento tradicional.”
“Percebo os fundos com muitos desafios, perspectivas e unificação de lutas. Todos com estratégias defender a Amazônia e fortalecer o protagonismo dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais na luta contra a exploração do capitalismo nos territórios.” Afirma Marta Campos, do Fundo Luzia Doroty.
A atividade reuniu os representes dos fundos: Dema; Mizizi Dudu; Luzia Doroty; Babaçu; Podáali; Indígena do Rio Negro (FIRN); Puxirum, e contou com o apoio da Fundação Ford; Sefras (Serviço Franciscano de Solidariedade); Terre Solidaire; Open Society e o Instituto Clima e Sociedade (ICS).

Leia outras notícias sobre a iniciativa nas redes sociais das organizações e fundos que participaram da roda:
https://www.instagram.com/p/CgphbCQO0q2/
https://fundopodaali.org.br/dialogar-e-construir-diretoria-executiva-do-podaali-convida-participantes-ao-dialogo-durante-seminario-no-fospa/
https://fundopodaali.org.br/podaali-discute-filantropia-dos-movimentos-sociais-da-amazonia-durante-x-fospa-em-belem-do-par/
https://www.miqcb.org/post/miqcb-apresenta-as-a%C3%A7%C3%B5es-do-fundo-baba%C3%A7u-no-x-f%C3%B3rum-social-pan-amaz%C3%B4nico-fospa-em-bel%C3%A9m-pa
Fotos: Oliver Kornblihtt, Élida Galvão e Sandra Regina.
VEJA O
QUE FALAM
SOBRE NÓS
Eu preciso de recursos para fazer a luta. Somos descendentes de grupos muito criativos, africanos e indígenas. Somos na maioria compostos por mulheres. E a formação em Mobilização de Recursos promovida pela CESE acaba nos dando autonomia, se assim compartilharmos dentro do nosso território.
Comecei a aproximação com a organização pelo interesse em aprender com fundo de pequenos projetos. Sempre tivemos na CESE uma referência importante de uma instituição que estava à frente, na vanguarda, fazendo esse tipo de apoio com os grupos, desde antes de outras iniciativas existirem. E depois tive oportunidade de participar de outras ações para discutir o cenário político e também sobre as prioridades no campo socioambiental. Sempre foi uma troca muito forte.
A CESE não está com a gente só subsidiando, mas estimulando e fortalecendo. São cinquenta anos possibilitando que as ditas minorias gritem; intervindo realmente para que a gente transforme esse país em um lugar mais igualitário e fraterno, em que a gente possa viver como nos quilombos: comunidades circulares, que cabe todo mundo, respirando liberdade e esperança. Parabéns, CESE. Axé e luz para nós!
A relação de cooperação entre a CESE e Movimento Pesqueiro é de longa data. O apoio político e financeiro torna possível chegarmos em várias comunidades pesqueiras no Brasil para que a gente se articule, faça formação política e nos organize enquanto movimento popular. Temos uma parceria de diálogos construtivos, compreensível, e queremos cada vez mais que a CESE caminhe junto conosco.
Ao longo desses 50 anos, fomos presenteadas pela presença da CESE em nossas comunidades. Nós somos testemunhas do quanto ela tem de companheirismo e solidariedade investidos em nossos territórios. E isso tem sido fundamental para que continuemos em luta e em defesa do nosso povo.
Quero muito agradecer pela parceria, pelo seu histórico de luta com os povos indígenas. Durante todo o tempo que fui coordenadora executiva da APIB e representante da COIAB e da Amazônia brasileira, nós tivemos o apoio da CESE para realizar nossas manifestações, nosso Acampamento Terra Livre, para as assembleias locais e regionais. Tudo isso foi muito importante para fortalecer o nosso protagonismo e movimento indígena do Brasil. Deixo meus parabéns pelos 50 anos e seguimos em luta.
Há vários anos a CESE vem apoiando iniciativas nas comunidades quilombolas do Pará. A organização trouxe o empoderamento por meio da capacitação e formação para juventude quilombola; tem fortalecido também o empreendedorismo e agricultura familiar. Com o apoio da CESE e os cursos oferecidos na área de incidência política conseguimos realizar atividades que visibilizem o protagonismo das mulheres quilombolas. Tudo isso é muito importante para a garantia e a nossa permanência no território.
Somos herdeiras do legado histórico de uma organização que há 50 anos dá testemunho de uma fé comprometida com o ecumenismo e a diaconia profética. Levar adiante esta missão é compromisso que assumimos com muita responsabilidade e consciência, pois vivemos em um país onde o mutirão pela justiça, pela paz e integridade da criação ainda é uma tarefa a se realizar.
A CESE foi criada no ano mais violento da Ditadura Militar, quando se institucionalizou a tortura, se intensificaram as prisões arbitrárias, os assassinatos e os desaparecimentos de presos políticos. As igrejas tiveram a coragem de se reunir e criar uma instituição que pudesse ser um testemunho vivo da fé cristã no serviço ao povo brasileiro. Fico muito feliz que a CESE chegue aos 50 anos aperfeiçoando a sua maturidade.
A gente tem uma associação do meu povo, Karipuna, na Terra Indígena Uaçá. Por muito tempo a nossa organização ficou inadimplente, sem poder atuar com nosso povo. Mas, conseguimos acessar o recurso da CESE para fortalecer organização indígena e estruturar a associação e reorganizá-la. Hoje orgulhosamente e muito emocionada digo que fazemos a Assembleia do Povo Karipuna realizada por nós indígenas, gerindo nosso próprio recurso. Atualmente temos uma diretoria toda indígena, conseguimos captar recursos e acessar outros projetos. E isso tudo só foi possível por causa da parceria com a CESE.