CESE no ATL 2026: tecendo a autonomia e a gestão territorial no chão das aldeias
14 de abril de 2026
Equipe da CESE, Coiab, Fundo Amazônia e organizações indígenas apoiadas pelo Projeto Dabucury na Tenda da Coiab ( ATL – 8 de abril de 2026)
A história da resistência indígena no Brasil é marcada pela luta incessante pela terra. No entanto, para além da demarcação, o atual desafio está na gestão, proteção e sustentabilidade dos territórios diante das pressões externas e mudanças climáticas. É nesse cenário que surge o Projeto Dabucury: compartilhando experiências e fortalecendo a gestão etnoambiental das terras indígenas da Amazônia brasileira, uma iniciativa daCESE e da Coiab, com apoio do Fundo Amazônia/BNDES a fim de apoiar projetos de gestão territorial e ambiental indígena, no intuito de avançar na implementação da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI). Mais do que um repasse de recursos, o Dabucury representa a materialização de um sonho de quase uma década, focado em transformar a PNGATI em ações práticas no dia a dia das comunidades.
Para socializar os resultados do projeto, a CESE participou, durante o Acampamento Terra Livre – ATL 2026, de uma roda de conversa sobre o fortalecimento da Coiab. A atividade aconteceu no dia 8 de abril. Participaram da atividade: o Coordenador-Geral da Coiab, Toya Manchineri, os/as assessores/as de projetos e formação da Cese: Vinícius Benites Alves, Tiffany Araújo, Rochele Fiorini e Carlos Eduardo Chaves. Das organizações apoiadas: Suyani Terena, da Associação das Mulheres Indígenas da T.I. Tirecatinga – Thutalinãnsu, Nilcélio Jiahui da Organização dos Povos Indígenas do Alto Madeira (OPIAM), Kennedy Apurinã, da Organização dos Povos Indígenas Apurinã e Jamamadi (OPIAJ), Marines Apurinã, da Manxinerune Tsihi Pukte Hajene (MATPHA), e Kakore Kayapó e Nengregoke Kayapó, da Associação Ngonh-Rorok-Kre.
Vinícius Benites Alves explica que o Projeto Dabucury busca desburocratizar o acesso ao recurso, permitindo que organizações indígenas gerenciem seus recursos e desenvolvam suas ações. “Como nem todos os territórios têm um plano de gestão atualizado, é importante incentivar as organizações a criar novos instrumentos ou atualizar os existentes, que em alguns casos são uma ‘fotografia’ de dez anos atrás e estão defasados”, detalha Alves.
O Dabucury está estruturado em quatro componentes: o primeiro consiste no mecanismo financeiro de apoio a projetos, através de dois editais; o segundo consiste no apoio técnico, gerencial e jurídico às organizações indígenas executoras dos projetos; ações de formação e desenvolvimento de capacidades incluem oficinas para detalhamento dos projetos e treinamento em gestão e prestação de contas; formações transversais em elaboração e gestão de projetos, equidade de gênero e comunicação e comunicação estratégica para ampliar a difusão das boas práticas de gestão ambiental e territorial indígena.
Para isso, foi lançado, em 2024, o primeiro edital com duas categorias de apoio: Urucum, destinada a organizações que já possuem seus Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) e precisam de recursos para implementar as ações ali previstas. E a Jenipapo, voltada para o incentivo à elaboração, atualização ou conclusão de novos instrumentos de gestão.

Os números do projeto revelam uma capilaridade impressionante pela Amazônia brasileira: no primeiro edital, lançado em 2024 durante ATL, foram recebidas 74 propostas, das quais 28 foram contratadas. Dessas, 12 estão elaborando novos planos e 15 já estão em fase de implementação.
O impacto direto alcança 40 Terras Indígenas, abrangendo uma área de aproximadamente 40 milhões de hectares e 29 regiões etno-regionais apoiadas. Os projetos em execução cobrem desde etnomapeamentos e expedições de vigilância com uso de tecnologia até a construção de casas de farinha e o fortalecimento da governança de jovens e mulheres.
Lideranças indígenas relataram como o projeto tem mudado a realidade de suas organizações. Para as mulheres da T.I Tirecatinga, em Mato Grosso, o projeto foi o combustível necessário para fortalecer a liderança feminina e a geração de renda.

]“O projeto da Dabucury vem fortalecer muito a gestão territorial e as mulheres, com apoio às lideranças femininas que vêm tomando a frente cada vez mais dentro de suas aldeias, na verdade, está sendo trabalhado 100% com as mulheres na contabilidade, são as mulheres que estão dirigindo, são as mulheres que estão em campo também executando o projeto, que é uma coisa bem interessante ver meninas jovens também levarem-se à frente. Estamos fazendo vários trabalhos dentro do território, principalmente na questão do artesanato, que é um eixo que tem dentro do nosso PGTA”, relata Suyani Terena, representante da Thutalinãnsu.
A experiência da OPIAM demonstra como o Dabucury se integra a estruturas regionais já complexas, que abrangem milhares de indígenas e diversas terras demarcadas. Nilcelio Jiahui, coordenador da organização, vê o projeto como o motor da política nacional no nível local.
O segundo edital, lançado em 2025, já selecionou mais 28 organizações (7 na categoria Jenipapo e 21 na Urucum), que devem iniciar a execução em maio de 2026. Este novo ciclo contempla mais 32 terras indígenas e outros 42 milhões de hectares, consolidando o Dabucury como um dos maiores pilares de apoio direto às associações indígenas na atualidade.


“Durante muito tempo minha associação não recebeu nenhum projeto. Este ano, como presidente, já consegui esse recurso para fortalecer a instituição dentro da minha aldeia. Agradeço por essa oportunidade que estão dando para os indígenas fazerem esses projetos para a própria comunidade”, afirma Nengregoke Kayapó, da Associação Ngonh-Rorok-Kre. Com o projeto, a associação vai realizar a primeira assembleia do departamento de mulheres, criando um espaço de decisão que envolverá 70 pessoas em dois dias de atividades.

No Amazonas, o projeto alcança territórios que aguardavam há décadas por um instrumento de gestão. Kennedy Apurinã, da OPIAJ, destaca o impacto na Terra Indígena Guajahã: “Nossa terra foi demarcada no final dos anos 80 e só agora vamos ter a oportunidade de elaborar essa proposta de trabalho de gestão do território. Fomos contemplados na categoria Jenipapo e a expectativa é enorme. Mesmo com nosso plano estratégico, vamos voltar às comunidades para atualizar informações. Será um instrumento de gestão muito importante para fortalecer nossos agentes ambientais e nossa instituição”, comemora Kennedy: “Estamos executando o PGTA da Terra Indígena Teari Seputi e isso é muito importante porque estamos executando a PNGATI na prática. Os materiais que estamos adquirindo vão servir para a proteção e vigilância do território. Como liderança, me sinto muito feliz porque este projeto veio para fortalecer o protagonismo indígena com os nossos planos de vida”, ressalta Nilcelio.

O sucesso do Dabucury não é apenas administrativo, mas uma vitória contra o tempo e as adversidades políticas. Toya Manchineri, lembra que o projeto enfrentou anos de paralisia devido ao cenário político anterior, mas que a resiliência das organizações permitiu que ele fosse realizado: “O projeto da Dabucury foi pensado há mais de sete anos. Estávamos com ele engatilhado com o Fundo Amazônia, mas aí veio a eleição de 2018 e a coisa parou totalmente. Com a mudança no governo, os parceiros perguntaram se queríamos continuar e dissemos que sim, porque é um recurso que não fica na Coiab; ele chega diretamente para os territórios”, explica o coordenador-geral da Coiab.
Para Toya, o grande diferencial do Dabucury é o empoderamento técnico das bases. “A própria associação faz o projeto, a captação do recurso e executa. Onde não tem plano, nós construímos. Onde está defasado, revisamos. E onde já está tudo ‘legalzinho’, nós implementamos. É o protagonismo indígena em sua forma mais pura”.

om a execução dos editais de 2024 e a previsão de contratação dos projetos de 2026, o Dabucury se consolida como exemplo de que, quando os recursos chegam às mãos de quem vive e protege a floresta, o futuro da Amazônia se torna mais seguro e soberano.
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Confira aqui o vídeo completo da Roda a partir de 03h50m