Como fortalecer o movimento feminista negro e popular?
26 de abril de 2018
Depois de três anos vivendo juntas experiências que fortaleceram a organização do movimento de mulheres negras e populares no Norte e Nordeste mais de 20 mulheres se reencontraram em Recife para mostrar ao mundo que a auto-organização é o que de mais radical as mulheres podem fazer para enfrentar tudo aquilo que as oprime e explora.

Neste momento, em que o campo progressista no Brasil enfrenta enormes desafios organizativos, a CESE (Coordenadoria Ecumênica de Serviço) e o SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia, promoveram, através de um grande reencontro de militantes e ativistas, um debate sobre o fortalecimento do movimento negro e popular das mulheres. Elas estavam no Recife para o lançamento do livro que sistematiza as experiências de mais de 82 organizações do Norte e Nordeste nos últimos três anos.
Apesar de todas dificuldades políticas que enfrentam, de 2015 a 2017, o movimento de mulheres negras e de setores populares cresceu. Em 2015, grandes mobilizações de mulheres ocorreram em Brasília: Marcha das Margaridas, com mais de 70 mil, e a Marcha das Mulheres Negras, que reuniu cerca de 30 mil. Estas manifestações demonstraram a força destas mulheres unidas em resistência não apenas para a população brasileira, mas principalmente para o próprio movimento.
A publicação documenta várias organizações que foram criadas como resultado desse processo: tanto articulações locais, como a Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e a Rede de Mulheres Negras do Rio Grande do Norte; como também redes regionais, como a Rede de Mulheres Negras do Nordeste e a Rede Fulanas, que reúne várias organizações da região norte.
Parte desse processo foi amparado pela ação que deu apoio a diversas estratégias desenvolvidas e propostas pelas próprias mulheres das organizações apoiadas, que também participaram de processos de formações, atos, diálogos, seminários e outras atividades públicas. Foram apoiadas organizações, grupos não formais, coletivos, fóruns e iniciativas de mulheres em grupos mistos do Norte e Nordeste do campo e da cidade. Para uma das coordenadoras do projeto, Silvia Camurça (SOS Corpo), a auto-organização é o que de mais radical as mulheres podem fazer para enfrentar tudo aquilo que as oprime e explora.

A proposta do livro é difundir o conhecimento produzido por e sobre estas mulheres, além de suscitar o debate sobre os desafios para sua permanência e protagonismo na arena política brasileira. A publicação dá voz às participantes-sujeitos por diferentes caminhos: na forma de textos autorais, pensamentos colhidos nos debates e que integram a elaboração construída pelas companheiras de diversas organizações que se dispuseram a ser co-autoras. Elas, mulheres quilombolas, indígenas, pescadoras, trabalhadoras rurais, pescadoras, marisqueiras, quebradeiras de coco, artesãs e militantes urbanas da periferia, também escrevem poesias, músicas e relatam do seu próprio jeito sobre o feminismo e contam sobre as práticas e estratégias de ativismo que praticam.
VEJA O
QUE FALAM
SOBRE NÓS
Celebrar os 50 anos da CESE é reconhecer uma caminhada cristã dedicada a defesa dos direitos humanos em todas as suas dimensões, comprometida com os segmentos mais vulnerabilizados da população brasileira. E valorizar cada conquista alcançada em cada luta travada na busca da justiça, do direito e da paz. Fazer parte dessa caminhada é um privilégio e motivo de grande alegria poder mais uma vez nos regozijar: “Grande coisas fez o Senhor por nós, e por isso estamos alegres!” (Salmo 126.3)
Comecei a aproximação com a organização pelo interesse em aprender com fundo de pequenos projetos. Sempre tivemos na CESE uma referência importante de uma instituição que estava à frente, na vanguarda, fazendo esse tipo de apoio com os grupos, desde antes de outras iniciativas existirem. E depois tive oportunidade de participar de outras ações para discutir o cenário político e também sobre as prioridades no campo socioambiental. Sempre foi uma troca muito forte.
Eu acho extraordinário o trabalho da CESE, porque ela inaugurou outro tipo de ecumenismo. Não é algo que as igrejas discutem entre si, falam sobre suas doutrinas e chegam a uma convergência. A CESE faz um ecumenismo de serviço que é ecumenismo de missão, para servir aos pobres, servir seus direitos.
Conheço a CESE desde 1990, através da Federação de Órgãos para Assistência Social (FASE) no apoio a grupos de juventude e de mulheres. Nesse sentido, foi uma organização absolutamente importante. E hoje, na função de diretor do Programa País da Heks no Brasil, poder apoiar os projetos da CESE é uma satisfação muito grande e um investimento que tenho certeza que é um dos melhores.
A família CESE também faz parte do movimento indígena. Compartilhamos das mesmas dores e alegrias, mas principalmente de uma mesma missão. É por um causa que estamos aqui. Fico muito feliz de poder compartilhar dessa emoção de conhecer essa equipe. Que venham mais 50 anos, mais pessoas comprometidas com esse espírito de igualdade, amor e fraternidade.
A relação de cooperação entre a CESE e Movimento Pesqueiro é de longa data. O apoio político e financeiro torna possível chegarmos em várias comunidades pesqueiras no Brasil para que a gente se articule, faça formação política e nos organize enquanto movimento popular. Temos uma parceria de diálogos construtivos, compreensível, e queremos cada vez mais que a CESE caminhe junto conosco.
A relação de cooperação entre a CESE e Movimento Pesqueiro é de longa data. O apoio político e financeiro torna possível chegarmos em várias comunidades pesqueiras no Brasil para que a gente se articule, faça formação política e nos organize enquanto movimento popular. Temos uma parceria de diálogos construtivos, compreensível, e queremos cada vez mais que a CESE caminhe junto conosco.
Há vários anos a CESE vem apoiando iniciativas nas comunidades quilombolas do Pará. A organização trouxe o empoderamento por meio da capacitação e formação para juventude quilombola; tem fortalecido também o empreendedorismo e agricultura familiar. Com o apoio da CESE e os cursos oferecidos na área de incidência política conseguimos realizar atividades que visibilizem o protagonismo das mulheres quilombolas. Tudo isso é muito importante para a garantia e a nossa permanência no território.
‘Seguimos sendo uma igreja profética, que transforma palavras em ações e apoia aqueles povos que historicamente sofrem as consequências das desigualdades. Saio deste momento com muita gratidão. Parabéns à CESE por, em nome das igrejas, estar comprometida com a defesa dos direitos humanos, a justiça social e a luta dos povos e comunidades tradicionais em todo o território nacional. Continuem contando conosco.” – Pastor Mauro Batista de Souza (IECLB).
Ao longo desses 50 anos, fomos presenteadas pela presença da CESE em nossas comunidades. Nós somos testemunhas do quanto ela tem de companheirismo e solidariedade investidos em nossos territórios. E isso tem sido fundamental para que continuemos em luta e em defesa do nosso povo.