Zanetti partiu, por Emiliano José
06 de março de 2022
Choro.
Partiu um daqueles homens a quem a morte não devia alcançar.
Um homem bom.
Um revolucionário.
Um amante da humanidade.
Amante da natureza.
Parecia ter surgido da terra, tal o amor a todas as plantas.
Ter nascido da mata, tal o carinho com as florestas.
Ter nascido num acampamento, tal a vinculação com os sem-terra.
Não, nasceu de uma aldeia indígena, tal o vínculo.
Nasceu num caminhão de carga, onde depois foi trabalhar.
Não, nasceu numa serra íngreme do Paraná, depois escalada por ele, alpinista.
Nasceu numa rua povoada de estudantes em marcha.
Foi defrontar ditadura.
Enfrentou tortura e prisão.
Estivemos juntos na “Lemos de Brito” em Salvador.
Alguns o chamavam padre, tal o seu jeito amoroso.
Acho que Zé Sérgio o chamava mãe, dado sua alma acolhedora.
Diante da morte de um ser assim a gente se queda, como se o mundo fosse injusto, cruel, perverso.
Nesses meses e meses da terrível doença, falávamos praticamente todos os dias.
Nunca descansou: a vida pra ele sempre foi a Revolução, a transformação do mundo.
Ele encarnava a esperança.
Sempre.
Mesmo nesses meses de tormento causado pela doença.
Eu brincava com ele nesses últimos tempos: você é nosso secretário-geral.
Porque ele sempre tinha uma palavra sobre os rumos do Brasil e do mundo.
Militante sem parar.
E revelava pressa com tudo, talvez antevendo o fim.
Não, nada de tristeza.
Sempre bom humor.
Mesmo nesses últimos meses.
Uma vez, na “Lemos” de Salvador, ele ia pra outro presídio, e nós chorávamos abraçados, como fosse a última vez
Não foi…
Seguimos juntos.
Amizade e ideais comuns desde 1968.
Compartilhados com a querida Cleusa, inseparável companheira dele, amor de toda vida.
Com Carol, filha querida dos dois.
As duas, acompanhando-o com imenso amor e carinho nesses momentos difíceis.
Que dizer nessa despedida?
Nós nunca o esqueceremos.
Suas lições nos acompanharão durante todo o tempo a nos ser concedido nessa terra.
Adeus Zanetti!
Comissão da verdade ouve o economista José Carlos Zanetti,vitima da ditadura militar.
Na foto: José Carlos Zanetti
Foto: Elói Corrêa/GOVBA
VEJA O
QUE FALAM
SOBRE NÓS
A CESE foi criada no ano mais violento da Ditadura Militar, quando se institucionalizou a tortura, se intensificaram as prisões arbitrárias, os assassinatos e os desaparecimentos de presos políticos. As igrejas tiveram a coragem de se reunir e criar uma instituição que pudesse ser um testemunho vivo da fé cristã no serviço ao povo brasileiro. Fico muito feliz que a CESE chegue aos 50 anos aperfeiçoando a sua maturidade.
A luta antirracista é o grande mote das nossas ações que tem um dos principais objetivos o enfrentamento ao racismo religioso e a violência, que tem sido crescente no estado do Maranhão. Por tanto, a parceria com a CESE nos proporciona a construção de estratégias políticas e de ações em redes, nos apoia na articulação com parcerias que de fato promovam incidência nas políticas públicas, proposições institucionais de enfrentamento a esse racismo religioso que tem gerado muita violência. A CESE nos desafia na superação do racismo institucional, como o grande vetor de inviabilização e da violência contra as religiões de matrizes africanas.
Viva os 50 anos da CESE. Viva o ecumenismo que a organização traz para frente e esse diálogo intereclesial. É um momento muito especial porque a CESE defende direitos e traz o sujeito para maior visibilidade.
Ao longo desses 50 anos, fomos presenteadas pela presença da CESE em nossas comunidades. Nós somos testemunhas do quanto ela tem de companheirismo e solidariedade investidos em nossos territórios. E isso tem sido fundamental para que continuemos em luta e em defesa do nosso povo.
Conheço a CESE desde 1990, através da Federação de Órgãos para Assistência Social (FASE) no apoio a grupos de juventude e de mulheres. Nesse sentido, foi uma organização absolutamente importante. E hoje, na função de diretor do Programa País da Heks no Brasil, poder apoiar os projetos da CESE é uma satisfação muito grande e um investimento que tenho certeza que é um dos melhores.
A CESE é a marca do ecumenismo na defesa de direitos. É serviço aos movimentos populares nas lutas por justiça. Parabéns à Diretoria e equipe da CESE pela persistência e compromisso, sempre renovado nesses cinquenta anos, de preservação da memória histórica na defesa da democracia em nosso país.
Há vários anos a CESE vem apoiando iniciativas nas comunidades quilombolas do Pará. A organização trouxe o empoderamento por meio da capacitação e formação para juventude quilombola; tem fortalecido também o empreendedorismo e agricultura familiar. Com o apoio da CESE e os cursos oferecidos na área de incidência política conseguimos realizar atividades que visibilizem o protagonismo das mulheres quilombolas. Tudo isso é muito importante para a garantia e a nossa permanência no território.
A CESE completa 50 anos de testemunho de fé ativa no amor, faz jus ao seu nome. Desde o início, se colocou em defesa dos direitos humanos, denunciou atos de violência e de tortura, participou da discussão de grandes temas nacionais, apoiou movimentos sociais de libertação. Parabéns pela atuação profética, em prol da unidade e da cidadania. Que Deus continue a fazer da CESE uma benção para muitos.
Eu acho extraordinário o trabalho da CESE, porque ela inaugurou outro tipo de ecumenismo. Não é algo que as igrejas discutem entre si, falam sobre suas doutrinas e chegam a uma convergência. A CESE faz um ecumenismo de serviço que é ecumenismo de missão, para servir aos pobres, servir seus direitos.
A relação de cooperação entre a CESE e Movimento Pesqueiro é de longa data. O apoio político e financeiro torna possível chegarmos em várias comunidades pesqueiras no Brasil para que a gente se articule, faça formação política e nos organize enquanto movimento popular. Temos uma parceria de diálogos construtivos, compreensível, e queremos cada vez mais que a CESE caminhe junto conosco.
