Projeto Dabucury: Formação reforça o papel da comunicação como estratégia para a defesa de direitos
09 de abril de 2026
Brasília/ DF – 02 de abril
Aconteceu, entre 31 de março e 02 de abril, o Encontro de Formação da Rede de Comunicadores e Comunicadoras Indígenas da Coiab, com a participação de 40 representantes de 17 organizações indígenas de 6 estados da Amazônia brasileira. Diferentes etnias com suas vivências e percepções sobre direitos territoriais, práticas culturais e desafios enfrentados em suas comunidades compartilharam estratégias de resistência, reforçando a importância de suas tradições em um contexto de crescente pressão em seus territórios.
O encontro faz parte do PROJETO DABUCURY, realizado pela CESE e Coiab com apoio do Fundo Amazônia/BNDES. A formação é uma etapa preparatória para a cobertura do Acampamento Terra Livre (ATL) e também um espaço de articulação interna para a Rede de Comunicadores Indígenas da Coiab.
A expectativa das lideranças é que os/as comunicadores/as atuem como “flechas” para furar a bolha da desinformação e garantir que o futuro dos direitos originários não seja negociado sob a pressão de interesses econômicos e políticos.
Rede de Comunicadores e Comunicadoras da Coiab
A Rede é uma estratégia central da Comunicação da Coiab para fortalecer as narrativas do movimento indígena da Amazônia, que visa promover a construção de novas lideranças com novas ferramentas através da comunicação. A iniciativa busca fortalecer as comunicações das organizações de base da Coiab, amplificar denúncias sobre impactos, invasões, racismo e desmandos das políticas públicas ambientais e indígenas, além de proporcionar maior acesso à informação para a defesa dos direitos indígenas.

A rede nasceu em 2020, durante a crise da pandemia de Covid-19, como uma estratégia de emergência para levar informações reais aos territórios, traduzir materiais e monitorar doentes frente ao apagão de dados na mídia e segue atuando politicamente, auxiliando comunicadores/as a se inserirem no movimento, promovendo formações para a cobertura institucional e territorial. Desde lá, foram mapeados cerca de 200 comunicadores/as atuantes no território amazônico. Hoje, ela já é a responsável pela produção da grande maioria dos conteúdos da Coiab.
Kaianaku Kamaiurá, coordenadora da rede, explicou que o objetivo é preparar os comunicadores para uma atuação que vá além do registro fotográfico, focando na incidência política nacional e internacional. “A gente acredita que não existe limite nem fronteira para a comunicação, ela é aberta para todo mundo”, afirmou Kaianaku.
Análise de Conjuntura: um olhar sobre 2026 pré-ATL

O coordenador-geral da Coiab, Toya Manchineri, esteve presente no encontro participando da mesa sobre “Análise de conjuntura, direitos socioambientais e fundamentalismos religiosos, políticos e econômicos”, que também contou com a participação da Gerente do Centro Amazônico de Formação Indígena (CAFI) da Coiab, Gracinha Manchineri, Adriana Ramos, secretária executiva do Instituto socioambiental – ISA, e Bianca Daébs, assessora para o ecumenismo e diálogo inter-religioso da CESE.
Para Toya Manchineri, o Brasil atravessa um período que desafia a própria existência das instituições e alerta para uma realidade de “guerra política” onde leis, como a do marco temporal, são editadas e reeditadas pelo Congresso Nacional para relativizar direitos inconstitucionais. Para ele, o papel da comunicação indígena nesse contexto é fundamental para combater as mentiras que circulam nos territórios: “Os/as comunicadores/as, com celulares e câmeras nas mãos, podem registrar as violações de direitos que acontecem nos territórios para rebater as mentiras contadas pela grande mídia.’’
Adriana Ramos, afirmou: “A comunicação que vocês fazem tem a capacidade de tirar as pessoas desse lugar de desconhecer a realidade indígena e conquistá-las para terem uma visão simpática”, pontuou. Ela reforçou a necessidade de preparar lideranças para responder a perguntas difíceis e lidar com o ”media training”” cotidiano da luta política.
Para combater o sistema, a comunicação não deve deslegitimar a fé do povo, mas disputar a narrativa com respeito, utilizando textos sagrados para promover empatia e justiça social em vez de atacar as crenças, afirmou Bianca Daébs, da CESE.
O primeiro dia também contou com uma roda de conversa sobre “Desafios de cobertura nos territórios” com o comunicador e cineasta indígena, Thaigon Arapiun.

Luara Sapará, da União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira – UMIAB, afirmou que a comunicação foi a única forma de fazer o Estado agir em tragédias recentes em Roraima, além de ser vital na denúncia contra os altos índices de feminicídio nas comunidades. Teka Shanenawa alertou que muitas lideranças têm medo de serem filmadas por conta das invasões e sugeriu que as denúncias ganhem nível nacional para blindar quem está na base e solicitou, com urgência, formações em segurança digital.
Comunicação para incidência
No segundo dia, o tema do encontro foi ‘’Comunicação para Incidência Política’’, no âmbito do Programa Virando o Jogo, facilitado por Lucyvanda Moura, assessora de projetos e formação, e Marília Pinto, analista de comunicação, ambas da CESE.

Segundo Marília Pinto, cerca de 73% das decisões editoriais e estruturas de produção se concentram no Sudeste e Sul, gerando silenciamento e distorção dos fatos sobre a Amazônia e os povos originários. ‘É necessário que os/as comunicadores/as indígenas ocupem ativamente o território da virtualidade para a defesa de direitos.’’

‘As organizações indígenas seguem em luta pelo direito ao território e pelo respeito aos modos de vida dos povos originários e a comunicação é uma das principais ferramentas de incidência política nesse campo. Foi uma grande riqueza a troca de experiências sobre o fazer de comunicadores e comunicadoras e perceber seu compromisso com o compartilhamento dos aprendizados no retorno às suas organizações de base, afirmou Lucyvanda Moura.

Preparação para a cobertura do Acampamento Terra LIVRE 2026
No terceiro e último dia a formação promoveu uma série de mini oficinas com os seguintes temas: estratégia de redes sociais e a campanha “A resposta somos nós” com Pedro Tukano; oficina de produção de textos com Nathália Kycendekarun Apurinã e a oficina de ferramentas de comunicação para o Acampamento Terra Livre (ATL) com Isaka Huni Kuin, todos/as da equipe Coiab. Kaianaku Kamaiurá e Antonio Marinho conduziram um repasse fundamental sobre protocolos de segurança física e digital, além de normas de cobertura institucional da Coiab.

Destaque para a presença de Samela Sateremawe e Tukumã Pataxó (APIB), que apresentaram a estratégia de comunicação do ATL 2026.

O encerramento do encontro contou com a participação de Toya Manchineri e Gracinha Manchineri, que realizaram a entrega de certificado aos cursistas.

Destaque para o trabalho da equipe da Coiab de comunicação: Pedro Tukano ( redes sociais), Jaú Ribeiro Vieira (facilitação gráfica), Anderson Arapaço (relatoria) e Renan Khisetje ( foto e vídeo).
Sobre o Projeto Dabucury
O projeto Dabucury foi desenvolvido para contribuir com a implementação da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI), visando viabilizar maior acesso das organizações indígenas aos recursos para a realização de seus projetos. No projeto, a formação tem como objetivo fortalecer e auxiliar a rede na utilização da comunicação como estratégia de visibilidade para as iniciativas e os conceitos indígenas de gestão e proteção territorial.
Vinícius Benites Alves, assessor de projetos e formação da CESE, salientou que o projeto, ao longo de 5 anos, tem como objetivo fortalecer a rede através de processos formativos, promovendo encontros presenciais e virtuais.
‘A formação de comunicação de 2026 foi a segunda presencial da rede no âmbito do Dabucury.
A primeira aconteceu em 2024. Além das 2 presenciais, foram promovidos mais 5 encontros virtuais.
A CESE busca contratar comunicadores/as da rede para prestação de serviços de comunicação ao projeto. Já foram contratados pontualmente cerca de 30 comunicadores/as desde 2024.’’
Saiba mais sobre o Projeto Dabucury em www.dabucury.org.br