Fórum Ecumênico ACT-Brasil lança carta oficial da Missão Ecumênica
07 de outubro de 2019
Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5.24)
Nos dias 03 a 04 de outubro, no oeste baiano, nós, representações de diferentes expressões de fé, provocados e provocadas pela Coordenadoria Ecumênica de Serviço com o apoio do Fórum Ecumênico ACT-Brasil, realizamos a V Missão Ecumênica com o objetivo de dar visibilidade nacional e internacional aos conflitos relacionados à água.
Nossa missão realizou-se nos dias em que lembramos e celebramos o carisma de Francisco de Assis que reconhecia na Mãe Terra, nossa Pachamama, um ser vivo merecedor de afetos, cuidados e amor. Esta espiritualidade que compreende o ser humano como a parte menor de uma complexa teia de vida é a força que sustenta nossa caminhada missionária.
Fomos impactados e impactadas pelas profecias de denúncia realizadas na audiência pública por mulheres e homens que sofrem os impactos de um sistema capitalista antidemocrático que nega o direito à existência de comunidades tradicionais.
Os clamores que ouvimos denunciaram a expansão dos tentáculos de um sistema explorador que transforma a terra e a água em mercadorias, aniquilando estas duas forças que são expressões do sagrado para os povos tradicionais.
“Todos e todas nós temos a cor da terra na pele” – lembrou-nos uma das mulheres impactadas pelo projeto de desenvolvimento que nega o direito à existência das muitas culturas que formam o cerrado baiano. Todos e todas temos a cor da terra em nossa pele, remete-nos à nossa ancestralidade primordial – ADAM – aquele que é da cor da terra.
Pistolagem, grilarem, assédio moral, manipulação de informações, restrição do direito de ir e vir, pressão para deixar suas terras são algumas das violências denunciadas. Identificamos em Barreiras, Correntina, São Desidério, Serra Dourada e outros municípios como o agronegócio age na região e em tantos territórios do país, de modo autoritário, agressivo e incapaz de conviver com a diversidade da criação.
A dignidade dos lutadores e lutadoras das comunidades geraizeiras, pescadores e pescadoras artesanais e de fundo e fecho de pasto é a força propulsora da capacidade de resistência destas comunidades.
Nós não queremos esmola. Queremos nosso direito à água e o de manter nosso modo de vida tradicional. Esta reivindicação contrastou com as tentativas de agentes públicos darem respostas às demandas apresentadas em um contexto de ausência do Estado democrático de direito e de prevalência da opção por uma política agrária que não reconhece modos tradicionais de vida.
De tudo o que ouvimos e aprendemos cabe-nos compartilhar alguns desafios fundamentais para a região:
- Que o poder público garanta a titularidade da terra dos povos tradicionais impedindo que o agronegócio e suas milícias privadas se apropriem indevidamente de um território sagrado para os povos tradicionais;
- Que os órgãos competentes realizem pesquisa sobre o impacto do agrotóxico nos peixes e nos alimentos consumidos pelas comunidades;
- Garantir mecanismos de efetivo controle social nos processos de outorga;
- Urgência em reunir diferentes comunidades para a elaboração de uma agenda de ação comum;
Nosso clamor é o clamor de um dos camponeses presentes na audiência pública: Tenha compaixão do camponês e tenha compaixão da Terra e das Águas!
“Das nascentes ao São Francisco, águas para a vida”.
Correntina, outubro de 2019.
VEJA O
QUE FALAM
SOBRE NÓS
A CESE não está com a gente só subsidiando, mas estimulando e fortalecendo. São cinquenta anos possibilitando que as ditas minorias gritem; intervindo realmente para que a gente transforme esse país em um lugar mais igualitário e fraterno, em que a gente possa viver como nos quilombos: comunidades circulares, que cabe todo mundo, respirando liberdade e esperança. Parabéns, CESE. Axé e luz para nós!
Parabéns à CESE pela resistência, pela forte ancestralidade, pelo fortalecimento e proteção aos povos quilombolas. Onde a política pública não chega, a CESE chega para amenizar os impactos e viabilizar a permanência das pessoas, das comunidades. Que isso seja cada vez mais potente, mais presente e que a gente encontre, junto à CESE, cada vez mais motivos para resistir e esperançar.
A família CESE também faz parte do movimento indígena. Compartilhamos das mesmas dores e alegrias, mas principalmente de uma mesma missão. É por um causa que estamos aqui. Fico muito feliz de poder compartilhar dessa emoção de conhecer essa equipe. Que venham mais 50 anos, mais pessoas comprometidas com esse espírito de igualdade, amor e fraternidade.
Ao longo desses 50 anos, fomos presenteadas pela presença da CESE em nossas comunidades. Nós somos testemunhas do quanto ela tem de companheirismo e solidariedade investidos em nossos territórios. E isso tem sido fundamental para que continuemos em luta e em defesa do nosso povo.
Quero muito agradecer pela parceria, pelo seu histórico de luta com os povos indígenas. Durante todo o tempo que fui coordenadora executiva da APIB e representante da COIAB e da Amazônia brasileira, nós tivemos o apoio da CESE para realizar nossas manifestações, nosso Acampamento Terra Livre, para as assembleias locais e regionais. Tudo isso foi muito importante para fortalecer o nosso protagonismo e movimento indígena do Brasil. Deixo meus parabéns pelos 50 anos e seguimos em luta.
Celebrar os 50 anos da CESE é reconhecer uma caminhada cristã dedicada a defesa dos direitos humanos em todas as suas dimensões, comprometida com os segmentos mais vulnerabilizados da população brasileira. E valorizar cada conquista alcançada em cada luta travada na busca da justiça, do direito e da paz. Fazer parte dessa caminhada é um privilégio e motivo de grande alegria poder mais uma vez nos regozijar: “Grande coisas fez o Senhor por nós, e por isso estamos alegres!” (Salmo 126.3)
Eu acho extraordinário o trabalho da CESE, porque ela inaugurou outro tipo de ecumenismo. Não é algo que as igrejas discutem entre si, falam sobre suas doutrinas e chegam a uma convergência. A CESE faz um ecumenismo de serviço que é ecumenismo de missão, para servir aos pobres, servir seus direitos.
Conheço a CESE desde 1990, através da Federação de Órgãos para Assistência Social (FASE) no apoio a grupos de juventude e de mulheres. Nesse sentido, foi uma organização absolutamente importante. E hoje, na função de diretor do Programa País da Heks no Brasil, poder apoiar os projetos da CESE é uma satisfação muito grande e um investimento que tenho certeza que é um dos melhores.
A CESE foi criada no ano mais violento da Ditadura Militar, quando se institucionalizou a tortura, se intensificaram as prisões arbitrárias, os assassinatos e os desaparecimentos de presos políticos. As igrejas tiveram a coragem de se reunir e criar uma instituição que pudesse ser um testemunho vivo da fé cristã no serviço ao povo brasileiro. Fico muito feliz que a CESE chegue aos 50 anos aperfeiçoando a sua maturidade.
Há vários anos a CESE vem apoiando iniciativas nas comunidades quilombolas do Pará. A organização trouxe o empoderamento por meio da capacitação e formação para juventude quilombola; tem fortalecido também o empreendedorismo e agricultura familiar. Com o apoio da CESE e os cursos oferecidos na área de incidência política conseguimos realizar atividades que visibilizem o protagonismo das mulheres quilombolas. Tudo isso é muito importante para a garantia e a nossa permanência no território.