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Incidência política

Entre memória e reparação, Marcha do Silêncio reúne familiares e militantes em Salvador

02 de abril de 2026

Ato anual contra o golpe de 1964 foi marcado por homenagens às vítimas da ditadura e pela entrega de certidões de óbito retificadas a familiares de desaparecidos políticos

Em busca de memória, justiça e reparação, a população de Salvador foi às ruas nesta quarta-feira (01) para a 7.ª edição da Marcha do Silêncio, um ato político e anual que este ano tem como lema “Crime continuado, lembrança permanente”. 62 anos depois do período do início do golpe militar de 1964, os manifestantes e familiares vão às ruas em busca de objetivos como homenagear as vítimas e relembrar os mortos e desaparecidos políticos durante o regime militar.

A programação teve início ainda na terça-feira (31). Pela manhã, ocorreu uma visita ao Forte do Barbalho, antigo centro de tortura, com o objetivo de ressignificar o espaço como memorial da resistência. No fim da tarde, aconteceu um importante ato aberto ao público: a 4.ª Solenidade de Entrega das Certidões de Óbito. A cerimônia foi realizada no Salão Nobre da Reitoria da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador, com a entrega de cerca de 32 documentos aos familiares das vítimas.

A marcha saiu da Praça da Piedade, no fim da tarde, em direção ao Monumento aos Mortos e Desaparecidos Políticos Baianos, localizado no Campo da Pólvora, em Salvador.

Diva Santana, que é irmã de uma das desaparecidas da ditadura e conselheira da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, destacou a importância do ato como uma ação de repúdio ao golpe militar, de homenagem às vítimas e também como um espaço de luta pela democracia. Segundo ela, essa defesa se torna ainda mais necessária diante de episódios recentes, como os ataques de 8 de janeiro de 2023, quando o Brasil sofreu ações criminosas contra as sedes dos Poderes da República, em Brasília, um ato antidemocrático marcado por destruição e pedidos pela volta da ditadura militar.

“A gente tem que ser vigilante constantemente, dia e noite, para defender e consolidar essa democracia. Porque a luta por igualdade e o fim dos preconceitos só terá fim num processo democrático.”

Reconhecimento e responsabilidade do Estado

Sobre a entrega das certidões, a ativista explica que o significado político da entrega dos documentos está na luta para que o Estado se responsabilize pela morte das vítimas da ditadura e reconheça o esforço das famílias na busca por esclarecimentos.

“Primeiro começou com a procura, com a luta pela anistia. Depois soubemos, por meio de ex-presos políticos, que muitos foram executados e ninguém foi comunicado. Minha mãe e meu pai nunca foram informados de que sua filha tinha morrido. Então, o significado político é fruto dessa luta, é um ganho que a gente teve, porque o Estado, segundo a nossa Constituição, é responsável pela vida dos cidadãos brasileiros.”

Dita também destaca a importância simbólica da entrega das certidões de óbito para os familiares dos desaparecidos políticos. Segundo ela, o reconhecimento formal pelo Estado responde a uma demanda histórica por verdade e memória.

“Quando a gente enterra, recebe a certidão de óbito, onde morreu, como morreu e onde foi sepultado. Claro que a gente não vai ter mais o corpo da nossa irmã, dos nossos parentes. Significa que o Estado brasileiro está respondendo pelas suas obrigações.”

O regime durou 21 anos no Brasil, de 1964 a 1985. O país ficou sob o domínio dos militares após a deposição do governo de João Goulart (1961-1964), em 31 de março de 1964. Dias após o golpe, o presidente da câmara de deputados, Ranieri Mazzilli, assumiu interinamente a Presidência.  Em 9 de abril daquele ano, foi decretado o Ato Institucional n.º 1, que dava ao Executivo poderes para cassar mandatos de parlamentares, suspender direitos políticos, alterar a Constituição e decretar estado de sítio sem a aprovação do Congresso. No dia seguinte ao decreto, o Congresso elegeu para a presidência o marechal Humberto de Alencar Castelo Branco.

Deu-se início a décadas em que o Brasil viveu sob a base do terror, tortura, repressão e apagamento de histórias e vidas de pessoas opositoras políticas. O país só voltou a ter eleições diretas em 1986.

De acordo com informações do Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade (CNV) – Volume III, cerca de 434 pessoas foram vítimas do Estado durante o período da ditadura.

Os atos que marcam a 7.ª edição da Marcha do Silêncio e a 4.ª Solenidade de Entrega das Certidões de Óbito são realizados pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) e pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP).

31 de março: fé, memória e compromisso

À luz da fé cristã, a memória do 31 de março também nos convoca a reconhecer a ditadura como expressão de uma injustiça profunda, na qual o próprio Estado se voltou contra seu povo, produzindo dor, silêncio e morte. Ao recordar esse período, a Igreja é chamada a discernir, no sofrimento das vítimas, a presença do Cristo crucificado — também perseguido, torturado e executado por um sistema de poder injusto. Não se trata apenas de recordar o passado, mas de afirmar uma fé que não se omite diante da violência, que denuncia estruturas de morte e se compromete com a justiça. Assim, a memória se torna caminho de conversão e resistência, transformando luto em luta e reafirmando, como imperativo ético e espiritual, que violações como essas nunca mais se repitam.

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