Comunicação como estratégia de luta: oficina fortalece incidência política de comunicadores/as indígenas da Amazônia
10 de abril de 2026
Iniciativa integra o Encontro de Formação da Rede de Comunicadores/as Indígenas da COIAB e fortalece ações de incidência política no contexto do Projeto Dabucury
Entre os dias 31 de março e 2 de abril de 2026, a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) e a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) realizaram, em Brasília (DF), o Encontro de Formação da Rede de Comunicadores e Comunicadoras Indígenas, no âmbito do Projeto Dabucury. A atividade antecedeu o Acampamento Terra Livre (ATL) 2026 e reuniu comunicadores e comunicadoras de diferentes territórios amazônicos para fortalecer estratégias de comunicação e incidência política.
Inserida na programação do encontro, a Oficina de Comunicação para Incidência Política, realizada no dia 1º de abril, partiu do contexto desigual da comunicação no Brasil e dos desafios históricos enfrentados pelos povos indígenas para garantir o direito de narrar suas próprias histórias. A formação articulou a análise crítica da mídia, a compreensão do funcionamento do Estado e a construção de estratégias comunicacionais voltadas à defesa de direitos, utilizando a metodologia do programa Virando o Jogo (Change the Game Academy).
“A comunicação, para os povos indígenas, não é só ferramenta. É território de disputa. Diante de um cenário em que poucos grupos controlam os meios e produzem narrativas que criminalizam e invisibilizam as lutas, fortalecer a comunicação é também fortalecer a incidência política e a autonomia dos povos”, destacou Marília Pinto, analista de Comunicação da CESE e educadora da Aliança Virando o Jogo.
Comunicação indígena ganha centralidade na estratégia política dos territórios


Ao longo da oficina, os participantes reforçaram o papel estratégico da comunicação na luta por direitos. “A comunicação é uma das formas mais eficazes para alcançar nossos objetivos políticos”, afirmou Tailani Braga Mendes (Tayla), da COIAB.
Para Thaigon Arapiun, da Federação dos Povos Indígenas do Estado do Pará (FEPIPA), a comunicação indígena precisa ser compreendida em sua dimensão política, coletiva e territorial. “A comunicação indígena é uma ferramenta de luta, de resistência e também de proteção dos nossos povos. Quando a gente comunica, a gente assume uma responsabilidade: vai ser cobrado, mas também vai cobrar. É um compromisso com o nosso território e com o nosso povo”, destacou.
Thaigon também ressaltou o papel da comunicação tanto para fora quanto para dentro dos territórios. “A gente comunica para fora, mas também precisa comunicar para dentro, para os parentes, especialmente para as lideranças mais velhas. A comunicação precisa ser respeitada, apoiada e ouvida dentro das próprias organizações”, afirmou.
As reflexões também evidenciaram que a comunicação indígena se diferencia por partir dos próprios territórios e experiências. “A comunicação tem sido uma arma mais penetrante do que o arco e a flecha. Porque o arco e a flecha atingem o corpo, mas a comunicação atinge o pensamento e o sentimento das pessoas”, afirmou Teka Shanenawa, ao destacar o alcance político das narrativas.
Formação aprofunda debate sobre incidência e disputa de narrativas


Nesse contexto, a oficina aprofundou o debate sobre comunicação institucional e comunicação para incidência, compreendendo que ambas se complementam, mas cumprem papéis distintos. Enquanto uma fortalece identidades, vínculos e processos internos, a outra atua na disputa de narrativas, na mobilização da opinião pública para apoiar as causas e na pressão sobre tomadores de decisão.
“Quando a gente comunica, a gente amplia a voz do território, denuncia violações e mobiliza outras pessoas para somar na luta. Isso faz com que as pautas ganhem visibilidade e pressionem quem decide”, reforçou Tayla.
A análise do funcionamento dos Três Poderes e dos espaços de decisão do Estado brasileiro também foi central na formação, apontando a importância de direcionar corretamente as estratégias de incidência. Compreender “em quais portas bater” e como articular comunicação e ação política foi destacado como elemento fundamental para fortalecer as lutas nos territórios.
Outro eixo importante da oficina foi o debate sobre enquadramento da mensagem e disputa de narrativas. A partir da análise de coberturas midiáticas, os participantes identificaram como a grande imprensa frequentemente criminaliza ações dos povos indígenas e invisibiliza as violações de direitos que motivam as mobilizações.
Para Luara Sapará, da União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira (UMIAB), a comunicação em rede tem sido decisiva para romper silenciamentos históricos. “A rede de comunicadoras tem sido essencial para expor a violência contra as mulheres indígenas e o feminicídio nos territórios. São situações que antes não tinham visibilidade”, destacou.
As discussões também trouxeram à tona os desafios enfrentados pelos comunicadores e comunicadoras indígenas, incluindo ameaças nos territórios e impactos emocionais do trabalho. Nesse cenário, a articulação em rede foi apontada como estratégia de proteção coletiva e fortalecimento das denúncias.
O encerramento do dia foi marcado por uma dinâmica de revisão dos conteúdos e uma roda de avaliação, na qual os participantes destacaram a importância da formação para fortalecer suas práticas. “A gente leva esse aprendizado para os nossos territórios e transforma em ação, em organização e em fortalecimento da nossa luta”, avaliou Sérgio Suruí, da OPIROMA – Organização dos Povos Indígenas de Rondônia, Noroeste do Mato Grosso e Sul do Amazonas.
Nesse mesmo sentido, reforçando a importância da formação para o fortalecimento das estratégias coletivas, Adriano Teixeira, da Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (APIAM), destacou: “Esse conhecimento é como uma semente. A gente leva para os nossos territórios e faz crescer”.
A formação foi encerrada com a entrega do “Guia de Mobilização de Recursos – 2025: Aprendizados e Desafios”, que passa pode ser utilizada como uma ferramenta de apoio para as organizações indígenas em seus processos de mobilização e incidência.
Para Lucyvanda Moura, assessora de projetos e formação da CESE, a atividade marca um passo importante no processo formativo da rede. “Essa formação inaugura um caminho importante dentro da Aliança Virando o Jogo ao aprofundar a comunicação para incidência política com a Rede da COIAB. A expectativa é que esse conteúdo circule nos territórios, fortalecendo práticas próprias de comunicação e ampliando a capacidade de incidência dos povos indígenas”, afirmou.Nesse contexto, a oficina aprofundou o debate sobre comunicação institucional e comunicação para incidência, compreendendo que ambas se complementam, mas cumprem papéis distintos. Enquanto uma fortalece identidades, vínculos e processos internos, a outra atua na disputa de narrativas, na mobilização da opinião pública para apoiar as causas e na pressão sobre tomadores de decisão.