CESE inicia o ano com formação interna sobre questão indígena
21 de fevereiro de 2018
Na manhã desta quarta-feira (21), CESE e COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia) se reuniram para melhorar a compreensão sobre os povos indígenas, aprofundar questões sobre violação de direitos e identificar desafios para essas populações, em torno de uma futura parceria entre as organizações.
A reunião teve como objetivo discutir com a equipe interna sobre temas indígenas que vão desde questões culturais até temas políticos, sobretudo diante da atual conjuntura brasileira de destruição da política indigenistas e ambiental. Foram convidados para o compartilhamento de suas experiências: Kleber Karipuna do Amapá, Mário Nicácio, do povo Wapichana de Roraima e Alan Apurinã do Amazonas.

Mário Wapichana, retratou que embora os indígenas historicamente convivam com espoliação do seu modo de vida, suas terras e sua cultura, na atual conjuntura política, sua reprodução física e cultural está ameaçada pela ação de grandes projetos e planos econômicos: “Com esse governo ilegítimo, nossos direitos duramente conquistados, estão sendo ameaçados, numa ofensiva ruralista.”
Kleber Karipuna, completa: ”Sem falar no Marco Temporal, que é uma interpretação de que os índios só têm direito as terras ocupadas em 1988. Isso é inconstitucional, já que a Constituição reconheceu direitos originários dos povos indígenas.”.

Já Alan Apurinã trouxe para a roda temas sobre a diversidade dos povos, seus costumes e suas crenças, além da importância da espiritualidade para sua relação com o mundo e com a natureza. Além disso, equipe da CESE levou dúvidas e curiosidades sobre a organização e articulação do feminismo indígena, entre outras questões de gênero.
Sônia Mota, Diretora Executiva da CESE, termina o encontro com a sensação de que o encontro foi um momento muito importante de partilha, e expõe o posicionamento da organização: “Escolhemos essa temática como primeira formação do ano, para que a CESE continue atuando no fortalecimento dos povos indígenas na luta e defesa por uma vida mais digna e justa”
Sobre a COIAB
Fundada em 1989 e sediada na cidade de Manaus, a COIAB é a maior organização indígena do Brasil. Ao todo, representa 160 povos de 09 estados amazônicos. São eles: Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Juntos, abrangem cerca de 60% do total da população indígena do país, cerca de 440 mil pessoas. Somado a isso, reúnem 403 Terras Indígenas demarcadas e ainda muitos outros territórios que ainda não foram regularizados.
VEJA O
QUE FALAM
SOBRE NÓS
A CESE foi criada no ano mais violento da Ditadura Militar, quando se institucionalizou a tortura, se intensificaram as prisões arbitrárias, os assassinatos e os desaparecimentos de presos políticos. As igrejas tiveram a coragem de se reunir e criar uma instituição que pudesse ser um testemunho vivo da fé cristã no serviço ao povo brasileiro. Fico muito feliz que a CESE chegue aos 50 anos aperfeiçoando a sua maturidade.
A relação de cooperação entre a CESE e Movimento Pesqueiro é de longa data. O apoio político e financeiro torna possível chegarmos em várias comunidades pesqueiras no Brasil para que a gente se articule, faça formação política e nos organize enquanto movimento popular. Temos uma parceria de diálogos construtivos, compreensível, e queremos cada vez mais que a CESE caminhe junto conosco.
Celebrar os 50 anos da CESE é reconhecer uma caminhada cristã dedicada a defesa dos direitos humanos em todas as suas dimensões, comprometida com os segmentos mais vulnerabilizados da população brasileira. E valorizar cada conquista alcançada em cada luta travada na busca da justiça, do direito e da paz. Fazer parte dessa caminhada é um privilégio e motivo de grande alegria poder mais uma vez nos regozijar: “Grande coisas fez o Senhor por nós, e por isso estamos alegres!” (Salmo 126.3)
Eu acho extraordinário o trabalho da CESE, porque ela inaugurou outro tipo de ecumenismo. Não é algo que as igrejas discutem entre si, falam sobre suas doutrinas e chegam a uma convergência. A CESE faz um ecumenismo de serviço que é ecumenismo de missão, para servir aos pobres, servir seus direitos.
Há vários anos a CESE vem apoiando iniciativas nas comunidades quilombolas do Pará. A organização trouxe o empoderamento por meio da capacitação e formação para juventude quilombola; tem fortalecido também o empreendedorismo e agricultura familiar. Com o apoio da CESE e os cursos oferecidos na área de incidência política conseguimos realizar atividades que visibilizem o protagonismo das mulheres quilombolas. Tudo isso é muito importante para a garantia e a nossa permanência no território.
A luta antirracista é o grande mote das nossas ações que tem um dos principais objetivos o enfrentamento ao racismo religioso e a violência, que tem sido crescente no estado do Maranhão. Por tanto, a parceria com a CESE nos proporciona a construção de estratégias políticas e de ações em redes, nos apoia na articulação com parcerias que de fato promovam incidência nas políticas públicas, proposições institucionais de enfrentamento a esse racismo religioso que tem gerado muita violência. A CESE nos desafia na superação do racismo institucional, como o grande vetor de inviabilização e da violência contra as religiões de matrizes africanas.
Ao longo desses 50 anos, fomos presenteadas pela presença da CESE em nossas comunidades. Nós somos testemunhas do quanto ela tem de companheirismo e solidariedade investidos em nossos territórios. E isso tem sido fundamental para que continuemos em luta e em defesa do nosso povo.
Conheço a CESE desde 1990, através da Federação de Órgãos para Assistência Social (FASE) no apoio a grupos de juventude e de mulheres. Nesse sentido, foi uma organização absolutamente importante. E hoje, na função de diretor do Programa País da Heks no Brasil, poder apoiar os projetos da CESE é uma satisfação muito grande e um investimento que tenho certeza que é um dos melhores.
Viva os 50 anos da CESE. Viva o ecumenismo que a organização traz para frente e esse diálogo intereclesial. É um momento muito especial porque a CESE defende direitos e traz o sujeito para maior visibilidade.
Parabéns à CESE pela resistência, pela forte ancestralidade, pelo fortalecimento e proteção aos povos quilombolas. Onde a política pública não chega, a CESE chega para amenizar os impactos e viabilizar a permanência das pessoas, das comunidades. Que isso seja cada vez mais potente, mais presente e que a gente encontre, junto à CESE, cada vez mais motivos para resistir e esperançar.