Vivências, territórios e saberes que fortalecem a luta no Cerrado
17 de julho de 2026
Compartilhar memórias, histórias, alimentos e estratégias de resistência. Caminhar pelos territórios, escutar quem os mantém vivos e reconhecer que cada experiência guarda aprendizados capazes de fortalecer outras lutas. Foi esse o espírito do Encontro e Intercâmbio “Vivências e Saberes nos Caminhos do Cerrado”, que reuniu povos e comunidades tradicionais de diferentes estados brasileiros em um espaço de formação, diálogo e construção coletiva.
Durante três dias, quilombolas, indígenas, extrativistas, quebradeiras de coco babaçu, ribeirinhas, pescadoras e pescadores artesanais, agricultoras e agricultores familiares, juventudes rurais e representantes de movimentos e organizações populares compartilharam desafios comuns e reafirmaram que a defesa dos territórios passa pelo fortalecimento dos modos de vida tradicionais, da agroecologia, dos sistemas agroalimentares e pelo enfrentamento ao racismo em suas diferentes expressões.
Em meio às diferenças de cada território, um mesmo entendimento atravessou os debates: proteger o Cerrado significa proteger seus povos. Significa reconhecer que a produção de alimentos, o cuidado com as águas, as sementes, a biodiversidade e os conhecimentos ancestrais fazem parte de um mesmo projeto de defesa da vida diante do avanço do agronegócio, da concentração fundiária, do racismo ambiental e das mudanças climáticas.
Promovido pela CESE – Coordenadoria Ecumênica de Serviço, com o apoio do Instituto Ibirapitanga, o encontro foi realizado entre os dias 8 e 10 de julho, em Cuiabá (MT). A atividade marcou a etapa de culminância do projeto “Relações entre raça, gênero, território e sistemas agroalimentares no Cerrado”, reunindo organizações parceiras para sistematizar aprendizados, fortalecer articulações e construir estratégias coletivas em defesa dos povos e comunidades tradicionais do Cerrado.
Sistemas agroalimentares que fortalecem os territórios

A primeira visita de campo levou o grupo à Comunidade São Manoel do Pari, localizada em Nossa Senhora do Livramento (MT). Em meio ao Cerrado mato-grossense, as pessoas participantes conheceram uma experiência construída a partir do trabalho coletivo, da agricultura familiar e da valorização dos conhecimentos transmitidos entre gerações.
Na comunidade, a diversidade da produção revela a riqueza dos sistemas agroalimentares desenvolvidos pelas famílias. Cana-de-açúcar, mandioca, milho crioulo, hortaliças, frutas, rapadura, melado, açúcar mascavo, furrundu, polpas e outros produtos são cultivados e beneficiados pela própria comunidade, fortalecendo a segurança alimentar, gerando renda e reafirmando a relação de cuidado com o território.
A acolhida foi conduzida por Dona Miguelina de Oliveira Campos, presidenta da Associação dos Agricultores e Agricultoras Familiares das Comunidades Aguaçu, Monjolo e São Manoel do Pari, que apresentou a trajetória da comunidade, marcada pela organização coletiva e pela construção de alternativas para permanecer no território.
“Nada do que conquistamos aconteceu sozinho. Cada avanço é resultado da união das famílias, da nossa organização e da decisão de continuar produzindo, mesmo diante das dificuldades. O território nos ensina que ninguém caminha sozinho.”
Ao compartilhar a história da comunidade, Dona Miguelina relembrou desafios enfrentados ao longo dos anos, como os impactos provocados pelas queimadas, a dificuldade de acesso às políticas públicas e os efeitos das mudanças climáticas sobre a produção agrícola. Ao mesmo tempo, destacou que foi justamente a organização comunitária que possibilitou importantes conquistas, entre elas a implantação da agroindústria para beneficiamento da produção, o fortalecimento da agricultura familiar e a criação de uma brigada voluntária de combate aos incêndios.
Para Fabiana Barros, integrante da associação, fortalecer os sistemas agroalimentares significa preservar muito mais do que formas de produção.
“Quando defendemos nossas sementes, nossos alimentos e nossos modos de produzir, estamos defendendo nossa história, nossa cultura e o direito das futuras gerações de continuarem vivendo neste território.”
As discussões evidenciaram que os sistemas agroalimentares construídos pelas comunidades tradicionais constituem respostas aos desafios enfrentados no Cerrado.
O dia foi encerrado com uma visita à agroindústria, onde as pessoas participantes acompanharam o beneficiamento de derivados da cana-de-açúcar e de frutas produzidas na região. A experiência reforçou que o fortalecimento dos sistemas agroalimentares também significa ampliar a autonomia das comunidades e valorizar as iniciativas que mantêm o Cerrado em pé por meio de seus povos e comunidades.
Quilombo Mutuca: defesa do território e enfrentamento ao racismo

No segundo dia de intercâmbio, a programação seguiu para a Comunidade Quilombola Ribeirão da Mutuca, em Nossa Senhora do Livramento (MT), uma das comunidades que integram o complexo Mata Cavalo. Com mais de um século de história, o território é marcado pela luta das famílias quilombolas pela permanência na terra, pela preservação de seus modos de vida e pela defesa de direitos diante das constantes ameaças ao território.
A recepção foi conduzida pelas lideranças da comunidade, que apresentaram sua trajetória de organização coletiva, a atuação da Associação da Comunidade Negra Rural Quilombo Ribeirão da Mutuca (ACORQUIRIM) e a importância da cultura como instrumento de resistência. Entre os símbolos compartilhados estavam a tradicional Festa da Banana, e a memória, especialmente das mulheres, que construíram a história da comunidade.

Ao acolher o grupo, Iolanda Ferreira destacou que abrir as portas da comunidade também é uma forma de afirmar sua existência. “É uma alegria receber vocês e mostrar que a comunidade continua aqui. Continuamos aqui no território porque resistimos todos os dias. Essa luta não é de uma pessoa, é construída coletivamente.”
A memória dessa resistência ganhou voz nas palavras de Dona Justina Ferreira, que emocionou os/as participantes ao compartilhar lembranças da infância, do trabalho na roça, dos ensinamentos recebidos de seus pais. “Foi na roça que aprendi o valor do trabalho, do respeito e da partilha. Hoje continuo cultivando essa história para que nossas filhas e netas conheçam de onde vieram e nunca esqueçam quem são.”, afirmou a liderança, reforçando a importância de manter vivos os conhecimentos transmitidos entre gerações.
A partir da realidade vivida pela comunidade, a roda de diálogo ampliou a reflexão para os desafios enfrentados pelos povos e comunidades tradicionais em diferentes regiões do Cerrado. Racismo estrutural, racismo ambiental e racismo fundiário apareceram como expressões de um mesmo processo de violação de direitos, que restringe o acesso à terra, ameaça os territórios, compromete a produção de alimentos e aprofunda os impactos da crise climática.
Representando o GT de Juventudes Rurais do Bico do Papagaio, Lara Thifanny destacou que o encontro revelou uma realidade compartilhada por diferentes povos do Cerrado.
“Mesmo vivendo em estados diferentes, percebemos que nossas comunidades enfrentam desafios muito semelhantes. Ao mesmo tempo, é nessa troca de experiências que encontramos caminhos para fortalecer nossas organizações e seguir defendendo nossos territórios.”
Para Fátima de Moura (Cidinha), coordenadora da FASE Mato Grosso, as experiências compartilhadas durante o intercâmbio reafirmam que a defesa dos sistemas agroalimentares está diretamente relacionada à garantia dos direitos territoriais.
“As comunidades mostram que produzir alimentos, preservar as nascentes, cuidar da biodiversidade e enfrentar o racismo fazem parte da mesma luta. Não é possível discutir justiça climática sem ouvir quem protege esses territórios.”
Ao final da visita, ficou evidente que as experiências da Mutuca dialogavam com as reflexões iniciadas no dia anterior em São Manoel do Pari. Em ambos os territórios, a organização comunitária, a defesa dos modos de vida tradicionais e a luta por direitos reafirmaram que proteger o Cerrado significa fortalecer os povos que historicamente preservam sua diversidade, sua cultura e seus bens comuns.
Para Olga Matos, assessora de Projetos e Formação da CESE, o encontro consolidou a importância de construir processos formativos enraizados nas experiências locais. “Os territórios não são apenas espaços onde os conflitos acontecem, são lugares de produção de conhecimento, de construção de alternativas e de afirmação de outros modos de vida”, destacou. Ao encerrar o evento, ela pontuou o compromisso da organização: “É esse o caminho que a CESE trilha ao seguir apoiando iniciativas que fortalecem a defesa de direitos e a justa luta por terra e território”.
Confira os registros do encontro
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