CESE e Movimentos Sociais: Co[i]nspiração democrática aponta caminhos coletivos para fortalecer as lutas no Brasil
23 de março de 2026
Encontro reuniu lideranças de todo o país para refletir sobre o contexto atual e reafirmar a força da ação conjunta, da escuta e da construção coletiva
Em um tempo que exige atenção, coragem e compromisso, o IX Encontro CESE e Movimentos Sociais reafirmou a potência da escuta e da construção coletiva como caminhos para fortalecer as lutas por direitos no Brasil. Realizado nos dias 18 e 19 de março de 2026, em Salvador (BA), o encontro reuniu lideranças de diferentes movimentos, organizações e territórios, além de representantes de agências de cooperação internacional, em um espaço marcado pela partilha, análise e co[i]nspiração democrática.
Inspirado pela ideia de que nenhuma transformação se constrói de forma isolada, o encontro foi pensado como um espaço de confiança, diálogo e reflexão sobre a realidade vivida nos territórios. Como destacou a diretora executiva da CESE, Sônia Mota, “o que escutamos aqui alimenta o nosso fazer em um momento difícil da nossa história” e reafirma o compromisso coletivo de “sair fortalecidos/as e com a certeza de que estamos do lado certo da história”.
Ao longo de dois dias intensos, a programação foi organizada em torno da análise de conjuntura, dos cenários e desafios, estratégias, papel dos movimentos sociais e das chamadas co[i]nspirações — inspirações construídas coletivamente para orientar caminhos futuros. O encontro buscou reunir leituras diversas da realidade, partindo das experiências de quem vive e constrói a luta cotidiana nos territórios.
Leitura coletiva da realidade e desafios do presente
As reflexões apontaram para um cenário complexo, atravessado por múltiplas crises — sociais, econômicas, políticas e socioambientais — e por profundas desigualdades estruturais. Questões como a intensificação das violências, a disputa por territórios e bens naturais, a crise habitacional e situações de despejos, a lógica de acumulação de capital e atuação da extrema direita nos meios digitais apareceram de forma recorrente nas falas.
“O Congresso Nacional é misógino, homofóbico e racista e não quer entender as nossas necessidades. É a lógica colonial desde o processo de invasão. Tem uma frase de Nego Bispo que trago comigo sempre, de que temos que pensar uma política contra colonial. Ou seja, políticas públicas construídas a partir dos povos e dos movimentos.”, afirmou Dinamam Tuxá, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB).
Também foi destacada a influência de dinâmicas globais, como o aumento dos investimentos em guerras e a reorganização geopolítica internacional, com implicações diretas sobre os recursos destinados às agendas de direitos humanos e às organizações sociais. Como sintetizou Ayala Ferreira, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST: “seguimos vivendo uma crise estrutural do sistema capitalista, que intensifica a precarização das condições de vida e a exploração da classe trabalhadora”, apontando como essas dinâmicas se expressam na realidade brasileira.
No contexto nacional, as análises evidenciaram desafios relacionados à garantia de direitos, à fragilização de políticas públicas e à necessidade de fortalecer a capacidade de incidência dos movimentos. As eleições também apareceram nas reflexões, reforçando que, mesmo diante de um governo eleito com apoio de amplos setores populares, seguem necessárias a mobilização e a incidência permanente para que as agendas do campo popular avancem.
Como apontou Raquel Ludermir, da Campanha Despejo Zero, os desafios sociais seguem profundos e exigem respostas articuladas: “temos que lutar por atuação interministerial, entendendo que o despejo é um tema muito complexo. O déficit habitacional é de 6 milhões e, além disso, há mais de 26 milhões de domicílios com inadequações. Sem falar na população em situação de rua.”, destacou Raquel, ao chamar atenção para a necessidade de ações conjuntas diante das múltiplas dimensões da desigualdade.
Na mesma direção, Selma Mbaye, da Via Campesina, reforçou a necessidade de incidência direta sobre o poder público: “Precisamos desengavetar 67 processos de titulação de territórios quilombolas”, destacou, evidenciando a urgência de pressionar o Estado por respostas concretas.
Dinamam Tuxá também reforçou o papel dos movimentos na incidência política: “O Brasil hoje está polarizado e em disputa política. Quem está nas aldeias, nos quilombos e nos territórios e quem faz parte do movimento popular não pode se eximir de cobrar políticas públicas. E isso não quer dizer que somos de direita, pelo contrário, estamos direcionando o governo.”, pontuou.
Ainda assim, longe de uma leitura paralisante, o encontro reafirmou que é justamente nesses contextos que emergem as maiores potências coletivas. A capacidade de articulação, a diversidade de sujeitos políticos e o acúmulo histórico das lutas foram apontados como forças fundamentais para enfrentar os desafios atuais.


Territórios, articulação e memória como forças das lutas
A centralidade dos territórios apareceu como elemento estruturante das reflexões, não apenas como espaço de atuação, mas como lugar onde se qualificam práticas políticas, organizativas e estratégias de incidência. Nesse sentido, foi reforçada a importância de ampliar a articulação entre diferentes sujeitos e realidades, reconhecendo que as lutas são interdependentes e se fortalecem na construção conjunta.
Esse desafio passa também pela capacidade de diálogo em contextos diversos, inclusive com setores religiosos. Como destacou Nilza Valéria Oliveira, da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, ao alertar que é preciso enfrentar leituras simplificadoras que aprofundam divisões: “É muito importante que a gente não eleja evangélicos/as como se fossem inimigos da democracia”. Ela lembrou que esses sujeitos são parte do povo brasileiro — majoritariamente negro, periférico e atravessado por múltiplas identidades — e que rotular essas pessoas só reforça conflitos desnecessários em um momento que exige unidade para fortalecer a democracia.
As contribuições também evidenciaram o papel estratégico da memória, da cultura e da comunicação no fortalecimento das lutas. Para Telma Gurgel, da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), “é fundamental recuperar nossas memórias de luta e sempre ter a divulgação dessas memórias como ponto central de construção”, reafirmando-as como elemento político. Nessa mesma direção, a cultura e a comunicação foram apontadas como ferramentas essenciais para mobilizar, disputar sentidos na sociedade e sustentar, no cotidiano, as agendas por direitos e democracia.
Encerramento: seguir co[i]nspirando caminhos
O último momento do encontro foi dedicado à construção coletiva de caminhos de ação, reafirmando a importância da articulação entre movimentos sociais, organizações, igrejas e parceiros para enfrentar os desafios colocados no presente. O que emergiu foram direções construídas em conjunto, apontando para a continuidade das lutas, o fortalecimento das alianças e a necessidade de respostas articuladas diante da conjuntura.
Para Ayala Ferreira, a construção dessas respostas passa também pelo cuidado com a vida e com os próprios sujeitos da luta. Ela destacou a importância de equilibrar a militância com o direito de viver plenamente: “Que possamos respirar mais, vivendo mais as conquistas, que possamos conspirar mais na construção de territórios seguros para aqueles e aquelas que estão na linha de frente”.
Na avaliação, multiplicaram-se os depoimentos e agradecimentos ao apoio da CESE, especialmente aos projetos desenvolvidos nos territórios, reconhecidos como fundamentais para sustentar e impulsionar as lutas. Ao mesmo tempo, participantes destacaram a importância do próprio encontro como espaço de articulação, reflexão e fortalecimento coletivo. Como afirmou Moisés Borges, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), “esses espaços que a CESE promove, reunindo movimentos, igrejas e financiadores, criam condições para construir algo novo e fortalecer nossa ação política”. Já Sarah Luiza Moreira, da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), ressaltou a qualidade dos debates: “a gente conseguiu fazer reflexões profundas, com seriedade e respeito, e isso faz com que a gente saia energizada, entendendo que não estamos sozinhas”.
Encerrando o encontro, a diretora executiva da CESE, Sônia Mota, reforçou que as reflexões construídas coletivamente seguem como base para os próximos passos da organização. “Tudo que nós conversamos vai servir de subsídio para a construção do nosso projeto político institucional”, afirmou.
O encontro também foi marcado por um momento simbólico de transição: a passagem da coordenação de Projetos e Formação, após 25 anos de atuação de Dimas Galvão, para Marcella Gomez. “Saio com muita gratidão por esses anos de caminhada e com a certeza de que a Marcella chega para fortalecer ainda mais esse trabalho feito por muitas mãos.”, agradeceu Dimas, que agora assume a função de assessor de projetos.
Entre análises, trocas e compromissos, o encontro reafirmou que é na construção coletiva que se renovam as forças para seguir atuando. A co[i]nspiração se afirma como prática viva — alimentada no encontro entre sujeitos diversos que seguem comprometidos com a luta por direitos, democracia e bem viver.