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22 de março – Dia Mundial da Água: um dom divino, um bem comum e um direito humano fundamental
22 de março de 2026
“… porque tive sede e me deste de beber!” (Mt 25,35b)
O Brasil é um dos países mais ricos em água doce. Tem grandes bacias hidrográficas, que constituem 12% da água doce existente no mundo. É o único país de dimensões continentais onde chove em todo o seu território. Entretanto, a situação das nossas águas é uma lástima. Aproximadamente 110 mil km de trechos de rios brasileiros estão contaminados por esgoto industrial, doméstico, metais pesados, agrotóxicos etc. Do ponto de vista do consumo, 16,5% da população brasileira não tem acesso à água potável; 57,4% do esgoto produzido não é tratado e é jogado in natura nos rios brasileiros. Cerca de 105 milhões de brasileiros vivem em estado de insegurança quanto à água que consomem. Uma outra situação que desperta a nossa indignação é quando sabemos que um “bem comum” como a água está sendo privatizado em diversos lugares, ou seja, o que era pra ser “gratuidade” virou comércio: algumas pessoas estão “autorizadas” a usufruir dela como se fosse propriedade exclusiva e não um bem comum a que todas as pessoas devem ter direito. A CESE, como organização ecumênica composta por seis igrejas cristãs, está sendo desafiada a se posicionar profeticamente diante deste grave atentado a nossa Casa Comum. Muitas pessoas estão sedentas de água para beber e de vozes proféticas que saciem a sua sede de justiça.
O 22 de março, Dia Mundial da Água, nos convida à reflexão. A olhar para o que estamos fazendo com esse bem sagrado. E o que vemos exige denúncia e ação.
Um quadro que não pode ser ignorado
Segundo levantamento do MapBiomas, em 1991 a superfície hídrica do país era de 19 milhões de hectares. Em 2020, essa área foi reduzida para 16,6 milhões de hectares, uma redução equivalente a mais de uma vez e meia a superfície de água de toda a região Nordeste em 2020.
Aproximadamente 35 milhões de pessoas no Brasil não têm acesso a água tratada. É como se as populações inteiras de 14 estados brasileiros vivessem sem o recurso de modo adequado. Outros 100 milhões de brasileiros e brasileiras continuam sem acesso ao serviço de coleta de esgoto, o equivalente às populações de 22 das 27 unidades da federação. São dados do Instituto Trata Brasil que se repetem há mais de uma década sem que o quadro tenha começado a ser revertido.
Esses números não são apenas estatísticas! Por trás de cada dado há territórios indígenas que perderam seus rios, comunidades quilombolas que veem suas terras invadidas, famílias ribeirinhas que não podem mais pescar e beber água da própria fonte. São as populações que o agronegócio predatório, a mineração irresponsável e a omissão do Estado mais atingem. A destruição ambiental não é democrática. Ela tem endereço, tem cor, tem nome.
Ato do MPP em defesa das águas e da pesca artesanal / Foto: arquivo CESE e MPP
Quando a água vira mercadoria
Esse cenário se agrava quando o poder público, em vez de garantir o direito, abre caminho para sua privatização. Em 2020, o Congresso Nacional aprovou o novo marco legal do saneamento, legislação que pode sucatear ainda mais o serviço de distribuição de água e de esgotamento sanitário no país, transferindo para o mercado a responsabilidade sobre um bem que deveria ser comum a todos.
Não é um fenômeno novo. Ao longo da história, especialmente a partir da revolução industrial e do fortalecimento do capitalismo, a natureza foi sendo reduzida a recurso, a matéria-prima, a mercadoria. A água, que em tantas tradições religiosas e espirituais representa vida, purificação e sagrado, passou a ser comprada e vendida como qualquer outro produto. E os frutos (Mateus 7:16) disso são os que vimos em Mariana e Brumadinho, nos igarapés soterrados no Pará, nos mananciais envenenados pelos agrotóxicos que escorrem pelos solos do Brasil.
Ato do MAB em defesa dos rios e da vida. Foto: Nívea Magno / MAB
O Cerrado e a luta dos povos pelas águas
“A gente ouve o barulho do rio daqui. Mas também ouve o das máquinas e cada um deles machuca.” A fala é de uma das lideranças da comunidade de Beira Rio, em São Desidério (BA). Há anos, aquele povo luta contra a instalação de uma Pequena Central Hidrelétrica que quer desviar aproximadamente 80% da água do Rio Grande para o lucro de uma única empresa, ignorando a existência das populações ribeirinhas da região.
É no Cerrado, berço de muitas fontes de águas brasileiras, que essa disputa se torna muito concreta. Para os povos e comunidades tradicionais que habitam esse bioma, a água não é só recurso: é parte vital de sua existência, presente na pesca, no cultivo de pequenas plantações e na continuidade de ritos ancestrais. Embora tenham seus modos de vida garantidos pela Constituição de 1988, essas comunidades enfrentam incessantes tentativas de violação do seu direito às águas, especialmente quando são expulsas de seus territórios ou quando os mananciais que lhes dão sustento são envenenados pelo agronegócio e pela mineração.
Ato das comunidades ribeirinhas do Rio Grande, no Oeste baiano, em luta pela tradicionalidade reconhecida e preservação dos rios
“A gente tem sofrido bastante com o processo de privatização das águas em nossos territórios. Tem a questão do uso de agrotóxicos, que acabam ‘descendo’ para os rios, para os igarapés e contaminam tudo. Fora a questão da mineração, outro fator que contribui para a poluição. Tudo isso traz morte para os seres que habitam nas águas, mas também traz morte pra gente, pras nossas comunidades. Que neste Dia Mundial da Água a gente faça a reflexão de que, acabando com a água potável, acabamos com a vida, afinal, água é vida”, relembra Emília Costa, da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.
É justamente em contextos assim que a CESE tem atuado, ao lado dos movimentos sociais que travam essa luta pela garantia do acesso à água como direito humano, universal.
Ampliar a compreensão, fortalecer as lutas
É extremamente necessário que se amplie a compreensão da água como um bem comum e que se fortaleçam as reivindicações por políticas públicas de acesso à água tratada para todas as pessoas.
Essa perspectiva dialoga com o reconhecimento feito em 2010, pela Assembleia Geral das Nações Unidas, quando o acesso à água potável foi declarado direito humano fundamental. Mais do que um marco jurídico, essa declaração é um chamado: garantir água de qualidade para todas as pessoas não é caridade, não é favor, não é serviço a ser privatizado. É obrigação do Estado e responsabilidade coletiva.
A CESE ao lado dos movimentos
Para a Coordenadoria Ecumênica de Serviço, celebrar o Dia Mundial da Água implica em sua missão profética de denunciar como crime o mau uso e descaso com as águas. Isso fere profundamente o meio ambiente, colocando em colapso não apenas a vida humana, mas toda a sociobiodiversidade.
Do ponto de vista ecumênico e inter-religioso, isso implica também alimentar e fortalecer a mística das águas presente nas mais diversas espiritualidades, afinal, embora saibamos que o descaso com os recursos naturais têm seu ponto central na objetificação da natureza propiciado pelo modo de vida capitalista, a raiz simbólica que muitas vezes justifica tudo isso está no olhar daqueles que insistem em “desencantar” o mundo, tirando desta terra toda a mística, transformando montanhas sagradas em “depósito de terras raras”, ou rios sagrados em represa para geração de energia.
Diante de tantos cenários de injustiça, neste Dia Mundial da Água a CESE reafirma seu compromisso pela defesa e garantia da água como direito humano fundamental e convida todas as pessoas a visitarem uma publicação, tema da Campanha Primavera para Vida de 20219 intitulada ”Águas da Resistência’‘ com palavras da Bíblia e palavras da Vida. São casos concretos, vidas de pessoas e de grupos impactados por projetos de morte que atentam contra o bem comum, a água, e histórias de grupos e/ou pessoas que enfrentam a tentativa de privatização e do uso exclusivo da água. Como cristãos e cristãs devemos nos posicionar, pois a missão de salvaguardar a Criação e cuidar da nossa Casa Comum não é uma ação a mais de nossas igrejas, mas um compromisso constitutivo de nossa fé e testemunho. Soa aos nossos ouvidos a palavra de Jesus: “Vinde benditos/as de meu pai, porque tive sede e me deste de beber”.
“Regas os montes lá das suas alturas; a terra farta-se do fruto das tuas obras. Fazes crescer a erva para os animais e a verdura para o serviço do ser humano, para que tire da terra o alimento.” (Salmos 104:13-14)
Conheço a CESE desde 1990, através da Federação de Órgãos para Assistência Social (FASE) no apoio a grupos de juventude e de mulheres. Nesse sentido, foi uma organização absolutamente importante. E hoje, na função de diretor do Programa País da Heks no Brasil, poder apoiar os projetos da CESE é uma satisfação muito grande e um investimento que tenho certeza que é um dos melhores.
Celebrar os 50 anos da CESE é reconhecer uma caminhada cristã dedicada a defesa dos direitos humanos em todas as suas dimensões, comprometida com os segmentos mais vulnerabilizados da população brasileira. E valorizar cada conquista alcançada em cada luta travada na busca da justiça, do direito e da paz. Fazer parte dessa caminhada é um privilégio e motivo de grande alegria poder mais uma vez nos regozijar: “Grande coisas fez o Senhor por nós, e por isso estamos alegres!” (Salmo 126.3)
Ao longo desses 50 anos, fomos presenteadas pela presença da CESE em nossas comunidades. Nós somos testemunhas do quanto ela tem de companheirismo e solidariedade investidos em nossos territórios. E isso tem sido fundamental para que continuemos em luta e em defesa do nosso povo.
Parabéns à CESE pela resistência, pela forte ancestralidade, pelo fortalecimento e proteção aos povos quilombolas. Onde a política pública não chega, a CESE chega para amenizar os impactos e viabilizar a permanência das pessoas, das comunidades. Que isso seja cada vez mais potente, mais presente e que a gente encontre, junto à CESE, cada vez mais motivos para resistir e esperançar.
Eu acho extraordinário o trabalho da CESE, porque ela inaugurou outro tipo de ecumenismo. Não é algo que as igrejas discutem entre si, falam sobre suas doutrinas e chegam a uma convergência. A CESE faz um ecumenismo de serviço que é ecumenismo de missão, para servir aos pobres, servir seus direitos.
Nós, do SOS Corpo, mantemos com a CESE uma parceria de longa data. Temos objetivos muito próximos, queremos fortalecer os movimentos sociais porque acreditamos que eles são sujeitos políticos de transformação. Seguiremos juntas. Um grande salve aos 50 anos. Longa vida à CESE
Quero muito agradecer pela parceria, pelo seu histórico de luta com os povos indígenas. Durante todo o tempo que fui coordenadora executiva da APIB e representante da COIAB e da Amazônia brasileira, nós tivemos o apoio da CESE para realizar nossas manifestações, nosso Acampamento Terra Livre, para as assembleias locais e regionais. Tudo isso foi muito importante para fortalecer o nosso protagonismo e movimento indígena do Brasil. Deixo meus parabéns pelos 50 anos e seguimos em luta.
A relação de cooperação entre a CESE e Movimento Pesqueiro é de longa data. O apoio político e financeiro torna possível chegarmos em várias comunidades pesqueiras no Brasil para que a gente se articule, faça formação política e nos organize enquanto movimento popular. Temos uma parceria de diálogos construtivos, compreensível, e queremos cada vez mais que a CESE caminhe junto conosco.
Comecei a aproximação com a organização pelo interesse em aprender com fundo de pequenos projetos. Sempre tivemos na CESE uma referência importante de uma instituição que estava à frente, na vanguarda, fazendo esse tipo de apoio com os grupos, desde antes de outras iniciativas existirem. E depois tive oportunidade de participar de outras ações para discutir o cenário político e também sobre as prioridades no campo socioambiental. Sempre foi uma troca muito forte.
Eu preciso de recursos para fazer a luta. Somos descendentes de grupos muito criativos, africanos e indígenas. Somos na maioria compostos por mulheres. E a formação em Mobilização de Recursos promovida pela CESE acaba nos dando autonomia, se assim compartilharmos dentro do nosso território.