Proteção e autonomia: mulheres negras no combate à violência
27 de janeiro de 2026
Nas últimas semanas, o Brasil foi tomado por grandes protestos em diversas capitais em defesa da vida das mulheres e contra o feminicídio. As mobilizações ecoam um cenário alarmante: segundo a pesquisa “Quem são as Mulheres que o Brasil não protege”, da Fundação Friedrich Ebert no Brasil, divulgada em novembro, o registro de mortes de mulheres em razão do gênero cresceu 176% em 10 anos, passando de 527 casos, em 2015, para 1.455. Do total de mulheres assassinadas nesse período, 68% eram negras.
É nesse contexto de agravamento da violência e insuficiência das respostas institucionais que a Rede Nacional de Mulheres Negras no Combate à Violência desenvolveu um projeto voltado à proteção, à autonomia e ao fortalecimento comunitário de mulheres negras em situação de violência, especialmente aquelas que vivem em comunidades periféricas urbanas e rurais, com apoio do Programa de Pequenos Projetos da CESE.
A iniciativa nasce da atuação histórica da Rede em territórios onde a ausência do Estado é uma realidade cotidiana e onde as redes informais de solidariedade, embora fundamentais, não conseguem suprir sozinhas a demanda por suporte especializado e garantia de direitos. Ao articular informação, educação popular e fortalecimento das lideranças comunitárias, o projeto buscou romper o silêncio imposto pelo medo, pela desinformação e pela desconfiança nas instituições.
Alinhamento à Marcha das Mulheres Negras
Para Silvana, uma das integrantes da Rede, as ações desenvolvidas dialogam diretamente com o acúmulo político da Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver. “O projeto da Rede abordou diretamente as consequências do racismo e do sexismo que a Marcha busca combater e reparar. É uma materialização das pautas e exigências da Marcha no plano prático e comunitário”, afirma.
“A Marcha é um ato político histórico que exige reparação histórica e a construção de uma sociedade onde as mulheres negras, em toda a sua diversidade, possam ter uma vida digna, livre de violências e com plenos direitos: o Bem Viver”, completa.
Entre as frentes do projeto, o acesso à informação e ao apoio especializado foi central para enfrentar a violência agravada pela omissão do poder público e pelo racismo institucional. Quanto à educação popular sobre racismo e sexismo, a ativista ressalta que as ações do projeto contribuem para a mudança cultural necessária, desnaturalizando as violências e capacitando as comunidades para o enfrentamento.
Mulheres negras: aquilombamento e protagonismo comunitário
O projeto se materializou em dois dias de mesas realizadas em julho de 2025, sob temas como “Desafios e Realidades da Violência contra a Mulher Negra”, “Porque a Segunda Marcha Nacional de Mulheres Negras em 2025” e “Roda de Conversa: Vozes da Resistência: Relatos e Experiências das Mulheres Negras Defensoras de Direitos Humanos”. Já entre as oficinas, foram abordados os Canais de Denúncia e Acesso à Justiça para Mulheres Negras; Saúde Mental e Autocuidado para Mulheres Negras; Autonomia Econômica como Ferramenta de Enfrentamento à Violência.


A implementação do projeto, segundo Silvana, foi marcada por um processo contínuo de articulação e fortalecimento das lideranças locais. “A implementação de um projeto com foco em autonomia e fortalecimento comunitário não é linear, mas um processo de aquilombamento e mobilização”, pontua.
A primeira etapa envolveu o mapeamento e a articulação de lideranças e ativistas para participação em um seminário da Rede sobre a Marcha das Mulheres Negras, fortalecendo vínculos comunitários e garantindo que as ações refletissem as necessidades reais das mulheres negras nos territórios.
Entre os principais impactos, Silvana destaca a quebra do isolamento vivido por mulheres em situação de violência. A criação de espaços de acolhimento sem julgamentos permitiu que muitas delas compartilhassem suas histórias e encontrassem apoio coletivo, passo essencial para romper o ciclo de agressões.
O acesso à informação possibilitou que as participantes nomeassem o racismo e o sexismo como violências estruturais, compreendendo que não se tratava de falhas individuais, mas de um problema social. Esse reconhecimento foi fundamental para fortalecer a luta por justiça e ampliar o senso de pertencimento comunitário.
O projeto também formou multiplicadoras. Mulheres e lideranças capacitadas passaram a levar informações sobre direitos, prevenção e enfrentamento da violência para outros espaços, criando uma verdadeira “teia” de proteção comunitária.
Programa de Pequenos Projetos
O apoio do Programa de Pequenos Projetos da CESE ajudou a viabilizar as ações e garantir que os recursos chegassem diretamente às mulheres que atuam na base dos territórios. Para Silvana, o valor do financiamento vai além do montante financeiro.
“O valor do apoio não reside apenas na quantia, mas na natureza do financiamento, que é particularmente adequado para o movimento social”, argumenta. Ela destaca que grandes financiadores costumam exigir altos níveis de formalização, o que exclui grupos comunitários e organizações de base. Nesse sentido, a CESE cumpre um papel estratégico ao priorizar iniciativas enraizadas nos territórios.
O apoio institucional também funciona como um selo de legitimidade e confiança, fortalecendo o trabalho da Rede e ampliando suas possibilidades de articulação e parcerias futuras. Ao investir no protagonismo das mulheres negras, o Programa de Pequenos Projetos contribui para transformar realidades locais e fortalecer a luta coletiva por reparação, bem viver e uma vida livre de violências.
Desde a sua fundação, a CESE definiu o apoio a pequenos projetos como a sua principal estratégia de ação para fortalecer a luta dos movimentos populares por direitos no Brasil.
Quer enviar um projeto para a CESE? Aqui uma lista com 10 exemplos de iniciativas que a organização apoia:
1. Oficinas ou cursos de formação
2. Encontros e seminários
3. Campanhas
4. Atividades de produção, geração de renda, extrativismo
5. Manejo e defesa de águas, florestas, biomas
6. Mobilizações e atos públicos
7. Intercâmbios – troca de experiências
8. Produção e veiculação de materiais pedagógicos e informativos como cartilhas, cartazes, livros, vídeos, materiais impressos e/ou em formato digital
9. Ações de comunicação em geral
10. Atividades de planejamento e outras ações de fortalecimento da organização
Clique aqui para enviar seu projeto! Mas se você ainda tiver alguma dúvida, clica aqui.