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Entre rios e distâncias, jovens do Marajó transformam encontros em caminhos de participação

15 de setembro de 2026
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Entre rios e distâncias, jovens do Marajó transformam encontros em caminhos de participação

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Apoiado pela CESE, o 5º Encontro Territorial da Rede de Jovens Marajoaras reuniu juventudes do arquipélago para fortalecer a participação política e manter viva, no pós-COP30, a discussão sobre justiça climática e o futuro de seus territórios.

Alana Tamires Arruda Paes vive na comunidade de Piriá–Santo Antônio, no interior de Curralinho, no Arquipélago do Marajó, no Pará. Durante muito tempo, ela conhecia pouco sobre os direitos dos jovens e não se via como alguém que pudesse participar das decisões sobre o lugar onde vive.

A distância também era concreta. Moradora de uma comunidade afastada, a jovem de 27 anos conta que muitas oportunidades de participar de encontros e outros espaços não chegam facilmente a quem vive no interior.

“Eu ainda não conhecia muito sobre os direitos da juventude e não tinha tanta compreensão sobre a importância de nós, jovens, buscarmos nosso espaço e participarmos das decisões que fazem parte da nossa realidade”, lembra.

Vieram as formações, depois os intercâmbios. Alana conheceu outros jovens, outras comunidades e realidades que, apesar de diferentes, carregavam desafios semelhantes. Aos poucos, aproximou-se da Rede de Jovens Marajoaras. Hoje, aquela jovem que pouco conhecia sobre os espaços de participação integra a coordenação da Rede e mobiliza outros jovens de sua comunidade e município.

Entre uma Alana e outra, houve encontros.

E foi justamente da necessidade de aproximar juventudes separadas pelas águas, pelas distâncias e pelas desigualdades do arquipélago que começou a ser construída a Rede de Jovens Marajoaras.

Quando chegar ao outro também é um desafio

Criada a partir de processos de formação, mobilização e intercâmbio entre jovens de diferentes municípios, a Rede vem construindo desde 2022 uma articulação territorial que reúne juventudes rurais, urbanas, quilombolas, ribeirinhas, pescadoras, extrativistas e estudantes. 

Antes dessa aproximação, explica Samily Barbosa, uma das coordenadoras da Rede, havia uma espécie de fragmentação. Cada município lidava com suas dificuldades como se elas fossem exclusivamente locais. Quando os jovens começaram a se encontrar, perceberam que muitos dos problemas atravessavam o arquipélago.

Um deles é o próprio deslocamento.

“É mais fácil chegar à capital do Pará, que é Belém, do que muitas vezes chegar em outro município do Marajó”, resume Samily.

Passagens caras, horários das embarcações, condições das marés, alimentação durante as viagens e dificuldades de acesso à internet ajudam a definir quem consegue chegar a uma formação, reunião ou espaço de participação. Segundo Samily, há situações em que um jovem pode precisar de quase R$1 mil para arcar com os custos de uma viagem.

Para quem muitas vezes já precisa escolher entre trabalhar e estudar, participar politicamente também tem um custo.

A realidade relatada pelos jovens está entre os desafios que motivaram o 5º Encontro Territorial da Rede de Jovens Marajoaras: Juventudes Amazônicas, Justiça Climática e Incidência Territorial Pós-COP30, realizado de 28 a 30 de julho, em Santa Cruz do Arari. O projeto foi construído para fortalecer a articulação entre jovens de diferentes municípios e ampliar sua participação em debates e espaços relacionados às políticas públicas, justiça climática e defesa dos territórios. 

Um encontro possível porque muita gente decidiu chegar

Reunir jovens espalhados pelo arquipélago significa enfrentar as mesmas barreiras que a Rede busca superar.

Com apoio da CESE, o projeto previu a participação direta de 60 jovens e recursos para tornar o encontro possível, incluindo alimentação, parte do transporte fluvial e terrestre, materiais pedagógicos e de comunicação, facilitação das atividades, equipamentos e registro da experiência.  

A Humana Brasil, parceira técnica, metodológica e institucional da Rede, também participa do processo, ao lado de organizações comunitárias, coletivos juvenis, instituições públicas e outros parceiros locais. 

Durante três dias, o encontro abriu espaço para rodas de conversa, oficinas, vivências culturais, trabalhos em grupo e plenárias. Entre os temas estiveram identidade amazônica, justiça climática, comunicação popular, Conselhos Municipais de Juventude, sociobioeconomia, saúde da mulher, ancestralidade e fortalecimento comunitário. 

Mas, para Samily, uma das imagens mais significativas não esteve necessariamente na programação. Foi ver os jovens ali.

Alguns haviam relatado dificuldades financeiras para participar. Outros precisavam conciliar a viagem com trabalho ou estudos. Vinham de diferentes municípios e comunidades, carregando experiências ribeirinhas, quilombolas, extrativistas e de outras juventudes que compõem o Marajó. “Mesmo com as nossas dificuldades, a gente fez acontecer”, conta.

Para ela, aquele esforço dizia algo sobre a própria Rede. Não era apenas a coordenação que estava fazendo o encontro acontecer, mas jovens que decidiram que valia a pena atravessar as dificuldades para estar juntos. “Uma andorinha só não faz verão”, diz Samily.

Foi essa percepção que, ao longo dos encontros territoriais, ajudou a transformar reuniões periódicas em uma articulação permanente. Os jovens não queriam esperar pelo encontro seguinte para voltar a conversar sobre seus problemas e construir respostas coletivas.

De participante a mobilizadora

Alana é uma das jovens que fizeram esse percurso.

O contato com a Rede mudou, primeiro, a forma como ela compreendia seu próprio lugar nas decisões sobre o território.

“Passei a perceber que a juventude unida tem força, voz e capacidade de transformar a realidade. Entendi que nós, jovens, precisamos estar à frente das tomadas de decisões, ocupando os espaços de participação e lutando pelos nossos direitos”, afirma.

Um episódio ficou especialmente marcado em sua memória.

Em Santa Cruz do Arari, Alana acompanhou a mobilização de jovens pela criação do Conselho Municipal da Juventude, o COMJUV. A articulação resultou na assinatura, pelo prefeito, de um termo de compromisso para a criação do Conselho.

Mais do que a assinatura de um documento, a experiência mostrou a ela que a organização coletiva poderia produzir uma resposta do poder público. “Quando a juventude se organiza e ocupa os espaços de participação, consegue fazer a diferença e contribuir para a construção de políticas públicas”, diz.

Hoje, Alana faz parte da coordenação da Rede de Jovens Marajoaras. Também atua na coordenação do retiro de jovens de sua comunidade e do município, onde procura incentivar outros jovens a participar de palestras, encontros e formações.

A mudança que aconteceu com ela começa, assim, a alcançar outras pessoas.

E Alana não é um caso isolado, segundo Samily. Ela conta que jovens que antes tinham dificuldade para se comunicar passaram a demonstrar maior segurança para falar e mobilizar suas comunidades. Alguns começaram a participar mais ativamente de conselhos municipais relacionados a áreas como juventude, meio ambiente e educação.

A articulação também continua quando os encontros acabam. Jovens de diferentes municípios passaram a se reunir remotamente e a compartilhar demandas sem precisar esperar por uma nova convocação ou pelo encontro anual.

 Quando a COP vai embora, o território permanece

Manter essa articulação ganhou outro significado depois da COP30. Realizada em Belém, em novembro de 2025, a conferência colocou a Amazônia no centro das atenções internacionais. A própria Rede participou desse processo, incluindo o painel “Ação Local, Impacto Global: Juventudes da Amazônia construindo Justiça Climática”, realizado em parceria com a Humana Brasil. 

Mas, para Samily, o período seguinte deixou uma sensação incômoda. “A gente passou por essa sensação de que a gente apenas era um objeto de estudo”, afirma. Durante a COP30, lembra, houve um olhar mais intenso para as populações e juventudes amazônicas. Depois que a conferência terminou, parte dessa atenção desapareceu.

As mudanças no território, não.

No município de Soure, onde Samily vive, ela acompanha processos de erosão que atingem praias e margens dos rios. Em outras partes do Marajó, relata mudanças nos regimes de chuva, perdas em plantações, alagamentos e alterações das marés que afetam a pesca. Há ainda períodos de calor que os jovens percebem como cada vez mais intensos.

Essas mudanças interferem inclusive na relação entre conhecimentos tradicionais e natureza. Samily conta que sinais da lua, das chuvas e das marés usados pelos mais velhos para identificar períodos adequados para pesca e outras atividades já não oferecem a mesma previsibilidade.

É nesse cotidiano que “justiça climática” ganha outro significado.

Para os jovens da Rede, explica Samily, ela deixou de ser apenas um conceito discutido em uma conferência internacional para se tornar um direito concreto: “à água limpa, à terra preservada e à permanência digna no território”.

O 5º Encontro foi pensado justamente para que a participação das juventudes amazônicas nos debates sobre clima, desenvolvimento sustentável e políticas públicas não terminasse junto com a COP30. 

O Marajó que não cabe na narrativa da carência

Para Samily, existe ainda outra disputa que os jovens precisam fazer: a disputa pela forma como o próprio Marajó é contado.

Quando a juventude amazônica é retratada fora da região, diz ela, frequentemente ficam de fora sua capacidade de organização, criatividade, produção cultural e os conhecimentos produzidos a partir dos saberes tradicionais. “A juventude marajoara não é apenas algo passivo, nem vive apenas de carências”, afirma.

As desigualdades existem e atravessam a vida dos jovens. Mas Samily rejeita a ideia de que elas possam definir a identidade do território. “É claro que existem as nossas limitações, as nossas dificuldades, mas não é a nossa identidade.”

Falar em identidade marajoara, para ela, é falar dos saberes ribeirinhos, quilombolas, indígenas e periféricos, da cultura e da relação das comunidades com o território. É também reivindicar um modelo de desenvolvimento no qual avançar não signifique abandonar essas raízes.

O futuro imaginado por esses jovens passa por educação conectada à realidade amazônica, trabalho digno, conectividade, proteção ambiental e oportunidades que permitam escolher permanecer no território.

Fazer as oportunidades chegarem

Em Piriá–Santo Antônio, Alana conhece bem o que significa essa escolha. Na comunidade onde vive, ela vê jovens concluírem o ensino médio sem conseguir continuar os estudos. Faltam cursos profissionalizantes, oportunidades de trabalho, acesso ao ensino superior e políticas públicas específicas para as juventudes.

É essa realidade que ela agora quer ajudar a transformar. “O que mais desejo transformar na minha comunidade é a falta de políticas públicas para a juventude”, afirma. “Quero contribuir para trazer mais oportunidades para os jovens, com cursos, educação, trabalho e outras políticas públicas que possam melhorar a vida da nossa comunidade.”

O projeto apoiado pela CESE também prevê que a experiência não termine em Santa Cruz do Arari. Depois do encontro, os participantes são estimulados a compartilhar aprendizados e debates em suas comunidades, escolas, coletivos e grupos locais, ampliando a mobilização nos municípios. 

Alana já percorre esse caminho. A jovem que antes pouco conhecia sobre os direitos da juventude agora integra a coordenação de uma rede, mobiliza outros jovens e reivindica políticas públicas para sua comunidade.

Em um arquipélago onde chegar ao município vizinho pode ser mais difícil do que chegar à capital, construir uma rede é também uma forma de encurtar distâncias.

E Alana, que antes não sabia como chegar aos espaços de participação, agora ajuda outros jovens a encontrarem o caminho.

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