Desinformação mira comunidades de fé e pode interferir nas escolhas eleitorais em 2026
16 de setembro de 2026
Desinformação mira comunidades de fé e pode interferir nas escolhas eleitorais em 2026
Recurso de acessibilidade: versão em áudio do texto.
Campanha “Boto Fé no Voto” busca alertar para esse desafio e enfrentar as mentiras que circulam nessas comunidades.
Não uma, nem duas, nem três, mas por diversas vezes, a Bíblia Sagrada repudia e condena a mentira. Em Efésios 4:25 a escritura diz: “Pelo que deixai a mentira, e falai a verdade cada um com o seu próximo, pois somos membros uns dos outros”. O nono mandamento por sua vez proíbe a mentira. Em Êxodo 20:16, o texto religioso assevera: “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.” Provérbios 12:22 não deixa espaço para dúvidas: “Os lábios mentirosos são abomináveis ao Senhor; mas os que praticam a verdade são o seu deleite”. E Salmos 101:7 entrega uma orientação definitiva: “O que usa de fraude não habitará em minha casa; o que profere mentiras não estará firme perante os meus olhos.”
A despeito de todas essas expressas orientações, não é difícil encontrar lideranças religiosas manipulando suas comunidades de fé e as influenciando a partir da desinformação. Diante dessa preocupação e de mais um período eleitoral, o Coletivo Bereia, em parceria com a CESE – Coordenadoria Ecumênica de Serviço, lançou a campanha Boto Fé no Voto, em julho, na Catedral Anglicana de Brasília/DF. Para aprofundar a temática e fortalecer o compromisso com a verdade nos ambientes de fé, o Coletivo Bereia também promoveu, no âmbito da campanha, duas atividades em setembro: um minicurso voltado a jornalistas e pessoas que atuam em veículos de comunicação de igrejas, e uma live na última segunda, 14, com a participação das jornalistas Catarina de Angola e Thaís Lazzeri. As iniciativas reforçam o objetivo da campanha de enfrentar as mentiras que circulam nessas comunidades e que podem interferir no direito à escolha nas eleições de 2026.

A campanha ocorre justamente no pleito em que o Brasil celebra 30 anos da urna eletrônica. Prestes a completar 40 anos, Catarina de Angola, jornalista, mestre em desenvolvimento local, assessora da CAIS – Centro de Assessoria e Apoio a Iniciativas Sociais e diretora da Angola Comunicação, lembra que era criança quando sua mãe a levava para apertar os botões da urna, explicando a importância de exercer esse que é um dever e um direito cívico.

“Vindo de uma família negra, ela sempre reforçou a importância do ato de votar como algo que a gente deveria agarrar com unhas e dentes, porque era um direito novo conquistado”, argumenta. A jornalista pondera que a urna é vítima de ataques e mentiras desde o princípio, porque tudo que é novo encontra resistência, o que considera normal. Ela se recorda de campanhas de incentivo ao voto que reforçavam a segurança da urna eletrônica desde que foi instaurada. “Querendo ou não, tudo que remete à tecnologia causa um estranhamento. Desde quando surgiu o rádio, a TV, a geladeira, e não foi diferente com a urna eletrônica. Só que a urna eletrônica é equipamento que lida com decisão política. Então isso causa mais desconfiança.”

Para Catarina, uma das mentiras mais frequentes é a de que as urnas não são auditadas, ou de que possuem votos “gravados nelas”, ou ainda que alguns candidatos nem sequer estariam registrados. Mentiras que não fazem jus a um sistema que é referência em todo o mundo, mas que circulam não só nas comunidades de fé, como em todos os espaços.
Thais Lazzeri, fundadora do Fala – Estúdio de Impacto, compara a motivação para trabalhar no combate a fake news ao prejuízo causado pela desinformação durante a pandemia de covid-19, quando a segurança das vacinas foi posta em xeque. Ou seja, se a desinformação pode custar uma vida, o que mais ela pode destruir?

“Aí a gente começa a investigar o que chamamos de cadeia produtiva de mentira: um sistema muito bem feito, organizado, que gera influência e lucro para alguns grupos”, pontua. A especialista afirma que a crise nas eleições não nasceu no Brasil, mas sim foi importada. “Em uma a cada cinco eleições, candidatos derrotados rejeitam o resultado, e isso vale para todos os campos”. O resultado, completa, são justamente as pessoas que questionam as urnas indo votar, enquanto a grande massa se vê desengajada em meio à polarização e deixa de participar.
Thaís vai além, ela avalia que com o grande alcance das fake news a partir das plataformas digitais, e com a disseminação de notícias falsas online custando 78 bilhões de dólares por ano em todo o mundo segundo um estudo realizado pela empresa de cibersegurança CHEQ, podemos dizer que este é um modelo de negócio, que não será combatido por quem está lucrando com ele. O problema ganha uma dimensão ainda mais grave quando a fundadora do Fala chama atenção para dados que apontam que a maioria dos brasileiros não checa as notícias falsas que recebem, porque costumam partir de pessoas conhecidas, através de aplicativos de mensagem. O acesso à internet também é um desafio, já que nem sempre a conexão que permite o acesso a esses aplicativos permite também consultar aplicativos de busca para realizar a checagem.
A mentira também se adapta à fé
Ao olharmos para temáticas específicas que ganham cada vez mais centralidade no debate eleitoral, é possível notar que existem muitos discursos prontos para capturar justamente as comunidades de fé. Um exemplo é a segurança pública, apontada como a maior preocupação entre os eleitores brasileiros de acordo com diversas pesquisas. Outro, é a crise climática. Nessa em específico, circulam diversas teorias mentirosas, cujo alvo são as comunidades de fé.
“Existe o discurso da fecundidade divina, que consiste em atacar as políticas climáticas, incentivando a redução do consumo e o crescimento populacional, afirmando que Deus ordenou que a humanidade se multiplicasse sem restrições; tem uma frente que diz que nada que o homem faça pode afetar a Terra pois o planeta está sob controle divino; tem a da natureza a serviço do homem, que defende que a Terra e seus recursos foram entregues por Deus para uso irrestrito da humanidade, justificando a exploração ambiental sem limites; tem a tese de que o clima sempre mudou por vontade divina, negando a influência da intervenção humana no aquecimento global; tem os que afirmam que os desastres ambientais são sinais de um apocalipse inevitável, ou seja, não precisamos fazer nada; e tem a que retrata os cientistas do clima como opositores da fé, sugerindo que há um conflito entre ciência e religião”, conta Thaís.
Parte do negacionismo atual também precisa ser colocado na conta da própria comunicação, na avaliação de Thaís. “Nós comunicamos por muito tempo muito mal a mudança do clima. Porque as pessoas invariavelmente imaginam um iceberg derretendo. Errado não está, mas e aquela família que mora perto do rio e desistiu de comprar móveis porque perde todos os anos? Ou quando a escola manda uma notificação de que não dá para ter aula porque está muito quente? Isso também são mudanças climáticas.”
Na mesma linha, Catarina ressalta que por muito tempo a comunicação tratou o clima como algo relacionado à natureza, mas à parte da humanidade. “Por muito tempo o debate socioambiental foi colocado no campo da fauna e flora, como se a gente não fizesse parte da natureza. Quando a gente traz as pessoas para a centralidade, estamos falando de modos de vida, de poder construir algo junto à natureza, a gente fala de outros biomas.”
Tendo em vista todo esse cenário, Thaís apresenta algumas dicas práticas para lidar com a desinformação:
- Observar possíveis erros de gramática: invariavelmente a mentira escrita às pressas tem erro;
- Notar se essa notícia lhe causou raiva, ou provocou o sentimento de compartilhar de imediato para defender ou repudiar. Cuidado, a fórmula da mentira é nos pegar pela emoção;
- Conferir o site: parece o nome de um jornal sério, mas não tem o “.com.br”, por exemplo? Cuidado!
Essas são dicas para lidar com o problema em escala micro. Em escala macro, a especialista acredita que é preciso debater sobre responsabilização.
“Onde a informação não chega, a desinformação toma conta. Significa que não adianta ter um debate nacional sobre um assunto se ele não alcançar a minha comunidade. Então se dentro do espaço que eu convivo, com as pessoas que eu confio, seja minha família ou minha igreja, eu não encontro espaço para conversar, a desinformação vai ganhar espaço mais rápido. A solução é local. E o voto é capaz de mudar o nosso dia a dia”, finaliza.

Luciana Petersen, mediadora da live – Mestra em Comunicação Digital, jornalista, Feminista Negra, Pastora e co- diretoria executiva do Novas Narrativas Evangélicas
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Acompanhe a campanha Boto Fé no Voto no Instagram das organizações que fazem parte dessa iniciativa. Toda terça e quinta-feira, publicamos novos cards e carrosseis informativos para denunciar e enfrentar as mentiras que mais circulam nos ambientes de fé.
Boto fé na informação. Boto fé na democracia. Boto fé no voto!